domingo, 19 de julho de 2009

Bem ou Mal: Ele Lutou

Confesso, a primeira vez que entrei em sua casa para o conhecer fiquei intrigado e, de certa forma, apreensivo. Que homem seria esse que, à entrada da sua casa, orgulhosamente escreve: "Bem ou mal, mas lutei"?

Sabia do seu passado militar, sabia dos feitos que lhe são atribuídos. Nesse ano os jornais, a TVM trouxeram-no à ribalta para falar do Nó daquele general português que pretendia estrangular a FRELIMO em dias, que foi desatado sob suas ordens.

Esperava encontrar um homem com uma postura tipicamente militar. Ríspido. A foto de parede tirada em trajes militares patente na sala de visitas só ajudava a cimentar essa imagem. Enganei-me.

O homem que conheci era bem diferente dessa imagem: simples, afável, ponderado e de uma lucidez intelectual de fazer inveja. Falava pausado como que a medir cada palavra que dizia, como que a querer certificar-se de que era compreendido.

Ficamos amigos. Era meu pai também. Dizia que sogro é algo distante. Falávamos muito. Tinha orgulho do seu passado. Podia ter ficado à sombra do regulado do seu pai que era respeitado e temido em Gaza, mas preferiu juntar-se ao movimento que seu tio fundara e, tal como esse, lutar por Moçambique.

E lutou.

Se calhar hoje perceba a dimensão de "Bem ou mal, mas lutei."

Nos últimos dias vinha lutando contra um cancro. Há de ser a única batalha que o derrubou. E derrubou-o do facto.

Pouco antes das 12 horas de Domingo dia 19 de Maio, na Clínica especial do HCM, o médico anunciava que Cândido Jeremias Mondlane já não pertencia ao mundo dos vivos.

O maldito cancro derrubara o Major General (na reserva) Cândido Jeremias Mondlane.

Que descanse. Ele merece.

terça-feira, 14 de julho de 2009

E se Me Declarasse?

A propósito de "Escovinhas" VERSUS "Apostolos da desgraca"e de Apóstolos da Desgraça, Lambe Botas e Puxa Sacos: Quem os Cria? , e do período eleitoral já iniciado, ocorreu-me fazer este post, qual menino apaixonado por "aquela" menina que ninguém conhece e/ou imagina. Aquela menina que muitos outros querem e alguns repudiam...

E se dissesse que nas eleições que se avizinham apoiarei, de corpo e alma, a FRELIMO estaria:

  1. a "engraxar", para um cargo ministeriável?
  2. a "lamber botas" para ganhar simpatias?
  3. a "puxar saco" do Edson Macuacua, para ele me "txunar" para "algo importante"? Ou
  4. simplesmente, a tomar uma opção consciente, dentro do direito que me assiste de o fazer?
Sendo a 4 a resposta certa,

  • quando, e em que circunstâncias poderia eu estar a "engraxar," a "lamber botas," e/ ou a "puxar saco"?
  • essas "qualidades" são apenas reveladas nos nossos posicionamentos no debate público ou nas opções que tomamos?
Sendo qualquer das outras respostas a favorita,

  • a mamana de Chibuto, Erati, Machipanda, Buzi que se declare como eu, também estaria a "engraxar," a "lamber botas," e/ ou a "puxar saco"?
  • qual seria a "ambição" dessa mamana? Um cargo político para si? para o seu filho?
É possível ver as opções pro ou contra a FRELIMO fora do quadro do "apostolar da desgraça", "engraxar," "lamber botas," e/ ou "puxar saco"?

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Os Meus Premiados

A Nyiki agraciou-me com o prémio "Lemniscata" pelos " temas ricos e profundos" que abordo. Agradeço novamente aqui. Como foi anunciado, cada um deve indicar os seus premiados. É a minha vez. Não vou indicar 2 ou 4 como fizeram outros, são 5 e um prémio surpresa. A ordem é meramente alfabética.

Antes os meus critérios:

  1. a simplicidade da escrita;
  2. a objectividade;
  3. a verticalidade;
  4. o estilo
  5. os temas abordados; e...
  6. (o último é secreto).
Prémio "Lunáticos Românticos Júlio Mutisse 2009"

  • Amosse Macamo - Modaskavalo. Conheço-o a tão pouco tempo mas está catalogado entre os que considero meus amigos. Escrita simples denotando atenção sobre as coisas que descreve. Aliás, não seria de outra forma considerando que nos transmite para além das palavras, o sentido da riqueza do cancioneiro moçambicano. Compartilhamos a apreciação ao talento de Hortêncio, Arão Litsuri, João Cabaço, Mingas e outros embondeiros da nossa música; compartilhamos o desejo de ver moçambicanos a reconhecerem os seus clássicos, compartilhamos o amor pela vida e, se calhar, alguma boémia.
  • PC Mapengo - Cartas a Moda Antiga. Compartilhamos o 13 de Outubro como data de nascimento. Mas não é só. Compartilhamos algum percurso de vida, sonhos. Para ele, mais do que um amigo, me sinto obrigado a ser o mais velho algumas vezes. Sou o de facto. É um eterno apaixonado, uma escrita fluída, simples, sem preciosismos. Mora nele um prosador com vestes de poeta. Tem algo de subversivo e acredita que o país já não tem "Xiconhoca", já escreveu um "Manifesto Político" e,um "Delírio" de querer versos no funeral. Estas facetas são localizáveis no seu blog.
Prémio "Vem Ai o Buldozer"

O único nomeado e premiado é o meu amigo Egídio Vaz do Contrapeso 3.0. Homem de convicções fortes. Vejam só, afirma de viva voz que a Sociologia Não é Ciência (prometeu elaborar sobre isso, juntamente com o outro premiado que anuncio abaixo). Tem uma escrita agressiva mas leal. Quando inspirado é fogo: leia-se Pães políticos e sanduíches discursivas e, sobretudo, Para que não seja cúmplice para atestar do que digo. É um tipo porreiro de se conviver, companheiro indispensável para qualquer tertúlia. É um tigre que só tem que perceber que está bem como tigre, consolidar o seu espaço, sem se preocupar com outras ferras.

Prémio "Ideologia, Conhecimento e Discurso Legitimador"

  • Alberto Nkutumula - Nero Kalashinikov. Há 10 anos começávamos juntos o percurso que, 5 anos volvidos, nos fez juristas. Mantemos contacto, respeito, amizade e companheirismo. Adoro a forma como aborda os temas; umas vezes agressiva, outras menos. Adoro as analogias que nos traz (a do embondeiro por exemplo). Admiro a perseverança, o nunca desistir e a insistência para que andemos um pouco para além do óbvio, para além do aparentemente conhecido e por uma postura sã no debate. Bem haja bro.
  • Bayano Valy - Nullius in Verba. hibernou o Bayano, para muita pena minha; esclarecido, com uma escrita concisa e objectiva, clareza de ideias. Dizem que isso é impossível, mas é daqueles tipos que me agrada ler mesmo sem concordar com ele. Escrever bem é com ele. Espero que volte rapidamente.
  • Nyikiwa Pedro - Pensamentos de Uma Preta Africana. Se parasse só no título já perceberiam a razão da distinção mas não seria suficiente. Se falasse do sorriso dela talvez, os que não a conhecem ficassem limitados, mas se falar dos temas que ela abora, aí sim. Pode ser que me entendam. Não acredito que ela se indisponha. Isso transparece no que escreve e no como escreve e na tipologia de assuntos com que nos brinda, de uma forma didática como se com cada palavra nos segurasse pela mão para nos mostrar a luz, o conhecimento. É disso, também, que gosto dela e lhe atribuo este prémio.
Prémio surpresa, "Prémio Teimosia"

O teimoso que merece este galardão já não BLOGA. Retirou-se temporariamente. Elísio Macamo - Ideias Críticas. Vai para ele pela sua insistência num debate coerente de ideias. Pela sua insistência, muitas vezes incompreendido, na ideia de que devemos, antes, identificar eficazmente o problema pois, muitas vezes falamos, berramos, sem termos bem assentes as premissas claras que sustentem os nossos argumentos, derivado do conhecimento deficitário do problema que supomos estar a discutir.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Ponte Armando E. Guebuza

Não tenho dúvidas que o país assumiu uma nova dinâmica desde 2004. Não ponho em causa muitas coisas positivas ocorridas nestes 5 anos e das boas sementes lançadas na governação do Presidente Armando Emílio Guebuza, para o futuro. Mas tenho dúvidas quanto a questão relativa a atribuição do nome do actual Presidente à ponte sobre o Zambeze.

Repito, não ponho em causa os méritos da liderança governativa de Armando Emílio Guebuza. Aliás, enalteço-os. Quando olhamos o processo de descentralização, o protagonismo dado aos distritos, as projecções do crescimento macro-económico, o crescimento do valor dos investimentos mesmo em época de crise etc., não podemos ficar indiferentes; é sinal de que há trabalho bem feito pela actual equipa que tem como líder Armando Emílio Guebuza.

Os moçambicanos sabem, como sempre souberam, enaltecer aqueles que fazem bem. Saberão, olhando para o passado, o presente e as perspectivas de futuro, enaltecer os méritos da governação de Guebuza e criticar construtivamente os erros cometidos nestes cinco anos, a bem do nosso crescimento e aprendizagens.

Mas a ponte... a ponte... aquela ponte representa o sonho de gerações de moçambicanos, o materializar desse sonho que cruzou teimosamente a governação de Samora, Chissano até Guebuza. Para mim, e acredito para muitos, simboliza o encontro, o dar de mãos dos moçambicanos de todas as regiões do país.

Guebuza é o actual Presidente da República e, espero, renovará o mandato este ano. Segundo reza a Constituição da República, o Presidente da República é o Chefe do Estado, simboliza a unidade nacional, representa a Nação no plano interno e internacional e zela pelo funcionamento correcto dos órgãos do Estado.

Para mim a dimensão e o simbolisto daquela ponte, deveria ultrapassar a figura do actual chefe de estado, símbolo da unidade nacional. A dimensão daquele empreendimento devia, quanto a mim, ultrapassar a necessidade de homenagear Mondlane, samora, Chissano e/ou Guebuza.

Aquele empreendimento deveria, quanto a mim, receber o nome que reflicta a sua importância para os moçambicanos no geral, que ultrapassa de todas as formas, a importância que, neste momento, atribuimos ao PR Guebuza com todos os méritos reconhecidos da sua governação.

Na fase dos sonhos, falamos da ponte como a ponte da unidade nacional cujo símbolo actual é, de facto, Armando Guebuza. Daqui há 15 anos confiaremos noutro moçambicano que simbolizará a unidade nacional, bem maior a preservar.

Tenho fé que veremos aquela ponte como simbolismo da unificação do sul, centro e norte do país e não deixaríamos de reconhecer o mérito a Guebuza e sua equipe que, durante estes cinco anos, conseguiu garantir a boa execução da obra e a sua conclusão atempada. Isso ninguém retirará a Guebuza mesmo que a ponte não ostentasse o seu nome.

Guebuza é um patriota e será sempre visto dessa forma. Será imortalizado pela sua obra e entrega à causa que é Moçambique não desde 2004 mas, de bem antes, quando abdicou da de "curtir" a juventude e se entregou à libertação da pátria com outros jovens da sua geração.



segunda-feira, 29 de junho de 2009

A Responsabilização (Porque Nunca é Demais Repetir)

E se, de facto, como se refere no Blog do Reflectindo, citando o suplemento humorístico do Jornal Savana (o Sacana) o Governador de Tete, Ildefonso Muanantatha, viesse a público se retratar pelas alegadas ameaças de morte proferidas contra o jornalista do "Notícias" Bernardo Carlos? Isso nos bastaria nas nossas consciências enquanto cidadãos?

Tenho para mim que um pedido de desculpas resulta do reconhecimento de que agimos mal em determinado momento. De outra forma, o pedido de desculpas não faz sentido.

Ameaça de morte é um assunto grave. Aliás, há de ser por se considerar a ameaça como algo grave que o legislador penal a crminalizou no artigo 379 do código Penal. Diz o corpo do referido artigo 379 que "aquele que, por escrito assinado, ou anónimo ou verbalmente, ameaçar outrem de lhe fazer algum mal que constitua crime, quer lhe imponha, quer não, qualquer ordem ou condição, será condenado a prisão até 3 meses e multa até 1 mês".

O parágrafo único desse mesmo artigo dispõe que, "aquele que, por qualquer meio, ameaçar outrem para o constranger a fazer ou deixar de fazer alguma coisa a que por lei não é obrigado, será condenado a prisão até dois meses, se não estiver incurso na disposição deste artigo, nem ao meio empregado corresponder pena mais grave por disposição especial."

A citação destes dispositivos é para realçar a gravidade de uma ameaça e o repúdio que a legislação penal faz. Imaginem a ameaça feita por um agente do Estado a um cidadão, nos termos em que nos dizem que Muanatata o fez.

Sou de opinião de que, devido a gravidade da acusação, Muanatata como um indivíduo responsável, devia ter posto o lugar a disposição, até para permitir que a investigação que correu fosse o mais transparente possível e longe de qualquer suspeita de sua interferência.

Não foi assim que as coisas se passaram mas, e se viesse o Dr. Muanatata a público se retratar e continuasse no cargo de Givernador da Província de Tete? Deveríamos, simplesmente dizer: vale mais tarde do que nunca?

Como diz Elísio Macamo “o governo tem, em princípio, um mandato da sociedade para fazer coisas em nome dessa sociedade.” Estamos, de certeza, a falar de coisas boas. Não é para ameaçar pessoas que sua Excelência o PResidente Armando E. Guebuza e a Frelimo, a quem conferimos o mandato de fazer coisas em nome da sociedade moçambicana de 2004/2009 colocaram Muanatata como dirigente de Tete.

Responsável que é, Muanatata devia ser responsabilizado pelo que fez algo vai vai para além de um simples e hipotético pedido de desculpas resultante da pressão externa.

Como já disse muitas vezes, os direitos que temos como cidadãos não são privilégios e exigi-los não é ser mal criado e inoportuno. A cidadania é o conjunto dos direitos políticos de que goza um indivíduo e que lhe permitem intervir na direcção dos negócios públicos do Estado.

Uma das formas de intervir é clamar pela responsabilização.

Os nossos governantes são responsáveis no sentido de que assumem a obrigação de responder pelas acções próprias, pelas dos outros ou pelas coisas confiadas.

Porém, mais do que assunção de responsabilidade, há, no caso de desvios, a necessidade de imputar responsabilidades; a responsabilização. Isto muitas vezes falta na nossa sociedade. Se exemplo faltasse está ai o Governador de Tete.

Como cidadãos conscientes devemos nos bater pela responsabilidade e pela responsabilização. No caso em apreço,deve existir a imputação da responsabilidade pelo acto vil de ameçar outro cidadão de morte.

Calamo-nos em relação a isto calaremos sempre.

Porém, a julgar pelo que escreve o diário de Notícias de 24 de Junho, "os membros do Partido Frelimo ao nível de Tete não ficaram alheios a este comportamento maldizente do actual Governador de Tete, e acharam que a única forma era puni-lo ao nível partidário. Aliás, algumas das condições estatutárias para ser eleito anunciadas pelo Secretário da Frelimo para a Mobilização e Propaganda tinham a ver com o comportamento, disciplina e respeito pelos interesses do povo. Respeitar a diversidade, assumir a crítica e autocrítica entre outras. O Governador de Tete quando ameaçou o jornalista demonstrou não assumir a crítica a si dirigida em artigo no qual, o escriba denunciava problemas na gestão da coisa pública e do desempenho do Governo Provincial, bem como sobre a má qualidade das obras de electrificação das sedes distritais, a permanência ao relento das vítimas das cheias de 2006 entre outras coisas."

Bom sinal quando, dentro do Partido, as pessoas começam a assumir esta postura. Como diz Reflectindo, fazendo fé na notícia do Diário de Notícias, "Democraticamente falando, as bases da Frelimo em Tete devem ter agido com inteligência, pois que Ildefonso Muanantatha constitue um peso excessivamente negativo para a Frelimo naquela província. Era preciso descarregá-lo chumbando-o na lista de candidatos a deputados da Assembleia da República. Não há dúvidas que Muantatha não foi prudente, pois que se fosse, teria pedido demissão ou como se diz noutros lados “time-out” desde há muito tempo. Isso lhe teria permitido ser rapidamente desculpado não só pelos jornalistas, mas pela sociedade em geral. Um bom membro dum partido tem que evitar que as consequências dos seus erros sejam assumidas pelo seu partido."

É sinal de que nem tudo está perdido. A cidadania é exercida em determinados polos.

Adenda: Este post, foi feito na convicção de que, de facto, o Governador de Tete havia se retratado do sucedido e largamente difundido na imprensa nacional e, até, alguma estrangeira. Um comentário no blog de onde retirei a informação (o do Reflectindo) segundo o qual "Nao houve nenhum pedido de desculpas. O Sacana eh o suplemento humoristico do Savana. Uma das linhas humoristicas que segue eh a ironia. Nao eh por acaso que o Sacana declara que foi o unico jornal presente no tal pedido de desculpas", que, em si não invalida o essencial do meu argumento acima, sobre a necessidade de responsabilização dos nossos dirigentes inspirou-me na edição e alterações ao post original.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

O Caos Anunciado

Anuncia-se para os próximos (pouquíssemos) dias o aranque das obras de reabilitação do troço Jardim/ Benfica da EN1; a Praça dos Combatentes (vulgo Xiquelene) está em obras; a Joaquim Chissano está, igualmente, em obras. Isto é, as únicas vias de acesso ao grande Maputo estarão, simultaneamente, em obras.

É o anúncio do Caos se esta agenda não for repensada. Se já é difícil passar o Benfica dada a pressão rodoviária naquele troço, agravado pelo fechamento do Xiquelene o que é que nos reserva o futuro se este projecto de obras avançar?

Que soluções alternativas viáveis temos para chegar a cidade? Para além do contentamento de, brevemente, podermos transitar em estradas em boas condições e mais largas (caso da EN1) e sem o caos do Xiquelene, não deveríamos questionar os nossos governantes da exequibilidade destes empreendimentos em simultâneo para a natureza da nossa capital?

Tenho dito.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Um Povo Nunca Morre

A História de um país através do cinema

Por Policarpo Mapengo (in Jornal "Escorpião" 22 de Junho de 2009)

Um povo precisa de uma fonte de inspiração para sobreviver. Abrir a mostra de cinema dos Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, CPLP, com filme retratando Eduardo Mondlane, poucos dias antes da celebração dos 34 anos da independência é homenagear um povo que teve de aprender a viver entre todas as dificuldades. É com esse filme “Um Povo Nunca Morre”, que percorremos a história de Moçambique, os seus heróis, a sua arte e terminamos com notas soltas sobre o cinema angolano. Para este artigo recorremos a discursos do Presidente da República, Armando Guebuza e entrevista com os actores Gilberto Mendes, de Moçambique, e Nguxi dos Santos, de Angola.

A história deve começar do princípio. No cinema nem sempre é assim, mas quase sempre volta-se ao princípio. No ano que se comemoram 40 anos de morte de Eduardo Mondlane, e dois dias antes de se celebrar 89 anos que os faria se estivesse vivo, a “I Mostra do Cinema e Audiovisual da CPLP” que está a decorrer em Maputo, voltou ao passado para fazer uma devida vénia à figura mais importante da luta armada de libertação de Moçambique.

“Um Povo Nunca Morre” é uma história que nos faz andar pelos corredores de um povo através de um homem que Armando Guebuza, Presidente de Moçambique, soube definir em Janeiro quando exaltava as suas qualidades, dizendo que foi uma pessoa que “levou uma juventude vulgar mas com uma visão extraordinária.”

Eduardo Mondlane veste essa capa de “unanimidade” e é resgatada por diferentes partidos políticos. Para além dos seus camaradas da Frente de Libertação de Moçambique, que olham para ele como a maior fonte de inspiração na luta contra um exército bem armado, PIMO de Yá-Qub Sibindy, procura recuperar a sua imagem como base para novas frentes.

Sibindy recorre a Mondlane para sugerir “uma trégua política” como forma de enfrentar um inimigo comum que curiosamente, já foi identificado pelo actual presidente da Frelimo e da República de Moçambique, Armando Guebuza que é a “pobreza absoluta”.

“Quando surgiu a consciência política, Mondlane fez ver que era preciso unidade. Nós também propomos que se use a fórmula Mondlane para vencermos o inimigo comum que é a pobreza”, defendeu Sibindy numa conversa que tivemos com ele, onde expunha a sua teoria de “triângulo de poder”.

O mesmo discurso é usado pelo Presidente da República de Moçambique, quando fala de auto-estima. Ele recorre a Eduardo Mondlane para o que já tínhamos definido antes como “inspiração.” Num país como o nosso que “precisa de correr” para atingir o desenvolvimento, os heróis vão funcionar como modelos de integridade e de luta. São exemplos daquilo que um povo deve ser. É esse o discurso de Armando Guebuza em todas as esferas. Ao longo do seu mandato procurou resgatar a imagem dos heróis esquecidos como Filipe Samuel Magaia e polir os que sempre estiveram visíveis nas prateleiras mas que só eram recordados nos feriados de 3 de Fevereiro.

Mondlane e auto-estima

O discurso de Guebuza na abertura da Conferência Nacional de Administração Pública sob o tema “Boas Práticas no Âmbito da Reforma no Sector Público” procurava demonstrar essa necessidade de “aprender de exemplos”:

“Este é o ano dedicado ao Presidente Eduardo Chivambo Mondlane, filho amado desta bela pátria de heróis, nacionalista irreticente e dirigente carismático que, com muita clarividência, forjou a unidade nacional, a consciência de moçambicanidade e o sentido de auto-estima.”

Com este discurso o PR procura lembrar que em pátrias como a nossa, onde constantemente se precisa lutar por um motivo para viver, nascem sempre heróis. Não só na luta armada como durante anos pareceu por serem aqueles “bravos jovens” a ocuparem espaço na cripta. Nos últimos tempos foram para aquela “casa” da veneração de espíritos comuns, figuras como o poeta José Craveirinha que “profetizou” um país livre, assim como o maestro Justino Chemane que soube cantar as glórias desta pátria.

Abrir um festival internacional de cinema com história de Eduardo Mondlane é lembrar que esta sempre começa do princípio se nos basearmos no discurso do PR:

“O Presidente Eduardo Mondlane também configurou a Nação moçambicana e deu conteúdo ao Estado moçambicano, logo no seu alvor, estruturando-o e conferindo-o uma direcção popular de servidor do nosso maravilhoso povo. O presidente Mondlane deixou claro, em palavras e actos, que esse Estado deveria ser servido por moçambicanos patriotas, íntegros e com comprovada entrega à causa de Moçambique e do seu brioso povo.”

“Um Povo Nunca Morre” vem lembrar que com a morte do guia, como eram muitos dos líderes da frente e Mondlane em particular, ele deve continuar. No entanto essa continuidade é dada com base na estrutura montada antes do desaparecimento físico do líder. Depois da sua morte ele serve de exemplo, de inspiração, como diz Guebuza, Eduardo Mondlane “configurou a Nação” e deu “conteúdo ao Estado moçambicano”. Não seria com a sua morte que o povo iria morrer.

O melhor exemplo é dado por uma canção muito interpretada até à primeira metade da década de 1990 pelas crianças da escola primária:

“Mataram Mondlane pensando que já venceram, Samora respondeu a luta continua…”

O documentário “Um Povo Nunca Morre” surge como uma homenagem a uma “pátria de heróis” que aprende sempre a sobreviver.

O exemplo de sobrevivência é também o cinema dos países africanos de língua portuguesa. “Um Povo Nunca Morre” foi o escolhido para a abertura da “I Mostra do Cinema e Audiovisual da CPLP” que, como disse o antigo governador da província de Gaza e director do Instituto Nacional Audiovisual e

Vento soprou de norte

Se “um povo nunca morre”, ele produz os seus próprios ídolos, heróis e arte. Ao longo dos 34 anos da independência, a arte de representar, teatro e cinema, lutar por conquista de um espaço. Começando já por um clássico do cinema moçambicano “Tempo dos Leopardos”, esta arte voltava a contar a história de um povo que teve de aprender a lutar.

“Tempo dos Leopardos” é muito mais que uma história de guerra, é uma história de vitória. O filme na altura que ainda levantávamos a bandeira do nosso orgulho que começou a se desenhar com o “Nó Górdio”.

É também no tempo em que se acreditava em tudo, que surge o filme “O Vento Sopra de Norte”, rodado em 1985 e estreado em 1986, que traz actores como Gilberto Mendes e Lucrécia Paco.

Ao olhar para esse tempo, Gilberto Mendes procura fugir de comparações e pautar pelos momentos na realidade que se vive hoje:

“Na altura o presidente era Samora Machel, e tu te davas ao luxo de sonhar tudo. Ele era homem de cultura, apadrinhava cinema, a arte, o desporto.”

Esse Moçambique ainda sentia “o vento de norte” e todos acreditavam que tinham algo para dar para que a revolução não morresse. E Gilberto Mendes sentia isso:

“Eu fazia parte da selecção de natação e ele (Samora Machel) privava com os desportistas. É por isso que tínhamos boa selecção de natação, é por isso que ganhávamos aos Camarões em futebol, é por isso que batíamos Angola em basquetebol. Era possível sonhar.”

Tínhamos entrado com o actor para o campo de sonhos e para ele não era com um país assim que o vento da liberdade vindo de norte depois de sair de Dar-es-Saalam soprava.

“Não se sonhava com o país assim como está. Sonhava-se com um país equilibrado, sonhava-se que iríamos enriquecer juntos.”

No entanto os sonhos devem também ser contextualizado porque, como lembra Gilberto Mendes, “mudam-se os tempos e as vontades.” Quando Samora Machel morre o vento já soprava de Ocidente.

O país tinha que se adaptar à nova realidade. Joaquim Chissano assume o poder e assiste a queda do murro de Berlim e o fim da União Soviética. Condiciona o surgimento de uma imprensa privada e a arte, neste caso o cinema e o teatro, se perdem nessa onda de globalização. O país traça novas prioridades e novas políticas são definidas. Apesar de aceitar a nova realidade Mendes não concorda com a forma como é enfrentada:

“As políticas não podem ser definidas de forma ad hoc. Para a área artística, por exemplo “tem que se envolver os fazedores. Nesta mostra há muita gente que está descontente com o cinema.”

Contudo, a saída para demonstrar o seu descontentamento não se retira, pelo menos é o que pensa Mendes, pois “o Governo através do INAC, decidiu fazer qualquer coisa para que esta mostra fosse cá. O Governo fez seu papel e vai registar como algo feito.”

Segundo Gilberto Mendes é preciso que os fazedores do cinema se unam para travar uma guerra comum. Participando “nestes eventos você aproveita fazer contactos.”

Se Samora Machel, para Gilberto Mendes, apadrinhava a arte e o desporto, os dois últimos presidentes de Moçambique, assumiram uma outra postura.

“Samora apoiava o cinema, Chissano privatizou as salas e Guebuza quer trazer cinema de volta”.

Filmar guerra para esquecer a dor

Com uma história quase igual à nossa está Angola, país que pode contar os mesmos tormentos que nós passamos mudando apenas dos espaços geográficos. O cinema angolano parece justificar a ideia dos entrevistados pelo moçambicano Nelson Saúte para “Os Habitantes da Memória”. E segundo Saúte, os momentos de crise são férteis para a criatividade artística.

O actor Nguxi dos Santos diz também que o cinema deles ainda tem a guerra como a base, não para lembrar as suas maldades mas que fique claro que “nunca mais haverá guerra em Angola. Todos nós estamos doentes por causa da guerra. É uma realidade que temos de falar.”

A guerra, segundo Nguxi está sempre presente e deve ser vista também como responsável pelo atraso do cinema angolano.

“Metade do orçamento foi para a guerra. Não podemos fugir disso e nem fazer tabu.”

No entanto, há uma certeza “nunca mais haverá guerra em Angola porque a paz foi feita por angolanos”.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Estive Numa Gala

Estive numa gala.

Estive numa verdadeira gala. Não uma gala de plástico, de playback com gente a fazer de conta que canta. Estive numa gala onde me deliciei com acordes de artistas de mão cheia, de vozes de ouro. Artistas de referência embora poucas vezes referenciados; artistas cujo talento, há muito se diz, não fica a dever nada há muitos que, vezes sem conta, nos batem as portas e nos inundam de música(?) de plástico quais pastilhas indigestas.

Estive numa gala.

Uma gala aberta pelo Coral da UEM cantando o hino nacional acompanhado dos sopros de Moreira Chonguiça. Só ver o Moreira prometia.

Se dúvidas tivesse de que estava numa gala ter-se-iam dissipado logo de início. A voz suave, melodiosa e bem tratada do "poeta das boas essências," embalou-me num início que me assustou. Era de assustar qualquer um. Se o Hortêncio canta logo de início o que se seguiria? Um misto de contentamento e expectativa abateu-se sobre mim.

Depois veio o Arão. Sim o Litsure acompanhado de uma malta jovem, de vozes e acordes afinadíssimos (reconheci os meus amigos Alfa e Falito Magaia e ainda o Zé Manel). A angústia quanto ao que se seguiria dissipou-se. Não haviam dúvidas, eu estava numa Gala. Numa gala grandiosa ao nível do Homenageado: Eduardo Mondlane, no seu ano e nas vésperas do 20 de Junho que seria o seu 89º aniversário.

E não é que o Izidine me anuncia o João? Sim, o João Cabaço. Não resisti, peguei no telefone ensaiei uma filmagem que não deu certo. Vinguei me mandando uma SMS ao Amosse e ao Mapengo que dizia: "imaginas o que é ver e ouvir seguidamente Hortêncio, Arão e Cabaço? Agora é o Cabaço... roa-se de inveja." As respostas denotaram que meus amigos queriam estar ali onde eu estava; na gala. Numa verdadeira Gala.

O João cantou, dedicou a música a Vovô Janet. Brincou com a voz naquele seu estilo calmo, sereno e exuberante, naquela super voz que gostaria que meus bisnetos ouvissem ao vivo e não só via gravações que guardaremos. O João e a sua voz não devem morrer. Têm que estar presentes para que nossos bisnetos testemunhem, não só em escritos como este ou outros melhores, que o país tem uma grande voz. A voz do Gentleman Cabaço.

O Hortêncio e o Arão voltaram ao palco. Cantaram a esperança numa música composta, segundo o Hortêncio, em 1977 quando muitos países de África não estavam ainda independentes. Eles cantaram a esperança de que esses países hasteariam a bandeira e se afirmariam no plano das nações tal e qual Mondlane tinha sonhado para Moçambique já independente. Hoje, contextualizando, interpreto aquela música como a esperança de dias melhores para todos nós. Eu tinha chegado ao Céu, ou estava muito perto. As 3 vozes masculinas que mais admiro no panorama musical moçambicano estavam ali, a minha frente, cantando juntas... se não fosse o ambiente das galas... e eu estav numa gala. Numa verdadeira gala.

A Tânia Comé declamou melodiosamente um poema que nos lembra que Eduardo, o Mondlane, viveu, vive e viverá porque Moçambique é eterno e a trajectória de Mondlane se confunde com este Moçambique. Disse nos que mataram Mondlane mas não o tiram de nós, por que ele é um de nós, está em cada um de nós, e não se pode prender ou roubar a multidão. Não tenho dúvidas. Como dúvidas não tenho do talento da Tânia. Eu estava numa gala. Numa verdadeira Gala.

Depois veio o Ciro e os violinos. Confesso, não é o meu instrumento preferido mas, os sons do Ciro e suas 2 companheiras são me favoritos. Afinal música, bem tocada, mesmo que com garafas de cerveja vazias, soa sempre bem. Aquele era o ambiente da gala.

A ideia com aquela miscelânia, era mostrar a trajectória de Mondlane, as suas vivências e aprendizagens. Não foi por acaso que se abriu com Hortêncio, depois veio Arão e posteriormente Cabaço. Era o traçar do caminho Manjacaze, Kambine e Maputo. Os violinos simbolizam as diversas aprendizagens de Mondlane, as várias experiências.

O desfile não tinha terminado. A Gala estava a começar. Eu estava lá. Na gala. Na verdadeira gala.

O Izidine falou do amor que Mondlane tinha pelos seus filhos. Por isso veio o Mucavele, o José, (já perceberam que era uma ala a sério não é?) falar nos, cantando, das crianças. Pensei que ele fosse cantar, representando Mondlane, a balada para as suas filhas. O José trouxe uma composição nova, que fala de crianças, crianças sofridas que deambulam pelas estradas, principalmente aquela que segura sua mãe sega pedindo esmola ou a protegendo dos perigos dos automobilistas nas estradas de Maputo. Dedilhou a guitarra com mestria como se tivesse uma orquestra com ele. Mas era ele só. Ele mesmo, José Mucavele aquele monstro incotornável da nossa música. Eu estava numa Gala gente.

A Tânia queria ser "Tambor" e ela voltou. Voltou, cantou, aliás declamou ou cantava? Não sei, só sei que ela deu vida a poesia. A Tânia deu outra dimensão à Poesia naquele ambiente de gala em que Eu estava.

Quando anunciaram a UEM Youth Band, confesso que torci o nariz. Quem são esses? Mas eu disse para mim: os organizadores não vão me defraudar. Depois daquele naipe de artistas não trariam qualquer grupelho aqui. E o UEM Youth Band, de youth só tem mesmo o nome. Tiveram uma actuação personalizada tocando um estilo musical que se diz, ter sido dos favoritos de Mondlane: O Jazz. E os rapazes são mesmo bons. Não defraudaram e vincaram que estávamos numa gala. Numa verdadeira gala. Eu estava lá.

Veio a Chudy a cantora que descende do Herói, no seu estilo característico a hipnotizar a plateia. Magistral, digno de uma gala. Eu estava lá e vi. Vi e ouvi a Chudy acompanhada magistralmente pela UEM Youth Band, cantar duas músicas, a segunda da qual com sopros, também, do Moreira Chonguiça. Fenomenal. Aquilo estava acontecer ali, no centro cultural da UEM e eu estava lá.

A UEM Youth Band, acompanhou o Moreira numa das suas canções predilectas que fez vibrar a plateia. Eu disse para mim: este país tem talentos. Ali. naquele momento, estavam encarnados no Moreira e naquela banda de estudantes de música da UEM que o próprio Moreira tratou de dizer serem um futuro da nossa música e, eu cá para mim, que venha o futuro mas o presente me maravilha e, Moreira e a UEM Youth Band, maravilharam-me naquele ambiente em que eu estava. Um ambiente de gala, numa gala.

A Tânia voltou saxofoneando o Moreira, imitando-o na música que acabara de tocar para gritar como deve ter gritado o Eduardo "Deixem meu povo passar". Senti-me orgulhoso de, à minha maneira, fazer hoje parte de um exército enorme que luta, não para expulsar colonizadores, mas para o bem estar próprio e dos demais. Há coisa melhor? Estava numa gala.

Estava numa gala homenageando um homem que teve o mérito de dizer aos jovens do seu tempo: "não podemos lutar divididos, assim estaremos enfraquecidos.
Unamo-nos para combater eficazmente o inimigo comum."Os jovens do seu tempo perceberam a mensagem. Hoje somos independentes, pelo menos politicamente. E nós jovens de 2009, século XXI, essa mensagem não nos diz nada? Continuamos cada um na sua trincheira enquanto os desafios de acesso ao emprego, habitação e outros pesam sobre nós?

Enfim... mas aqui estou a falar da gala. Daquela em que eu estive. E dizia que Mondlane uniu os jovens do seus tempo. E pregou esta unidade; deviam ser unidos na época e devemos continuar unidos hoje e amanhã, como povo e com o ideal de, nas nossas diferenças, nos constituirmos como Nação. Por isso veio o Eyuphuro com rítmo forte, bem tocado, nada de plástico, sintético. Tudo real, guitarradas boas, as manas a dançarem com trajes típicos lá da banda. Fenomenal. Este país é magistral. Os presentes vibraram, bateram palmas. Animou. Eu extaziado dizia. Estou numa Gala.

A Gala continuou. Ouvi e vi o Dua cantar sobre a irmandade. Ele nos convidava para essa irmandade. Deviámos trazer mais amigos, mais gente, mesmo que não fosse do nosso bairro para aquela irmandade. Só visto. Era uma vez uma Gala a que eu presenciei.

Gorwane para fechar. Chitsondzo limpou as lágrimas dos Dzovos que choram o filho de rei que morreu defendendo o seu povo e David Macuacua majurujentou o povo que levantou, aplaudiu e foi se dispersando na certeza de que, tal como, estivera numa Gala. Há a promessa de reencontrá-los em Nwajahane.

PS: Falando em Nwajahane, por imperativos familiares, é para lá que terei que ir este sábado (a Minha Mondlane não abre mão da minha companhia) pelo que, como alguém já disse, não podendo dois corpos estar simultaneamente no mesmo local (neste caso querendo estar) não poderei me fazer presente - fisicamente - no HG Machava. Mas, acreditem, lá estarei de espírito por acreditar nas iniciativas do género e por querer que prossigam. Por favor deixem naquelas crianças, pelo menos, uma sensação parecida com a que senti ontem na gala que descrevo acima. Um abraço.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Renovando Herois - Renovando Desafios (2)

Insisto com os heróis, insisto com a sua renovação, na convicção de que eles fazem parte da nossa história; fazem parte de nós. Fazem parte da história de que não podemos excluir a FRELIMO (a Frente) nem a Frelimo (o Partido) pelo seu papel na Luta de Libertação Nacional e na condução dos destinos da Nação respectivamente.

O debate sobre os heróis nacionais, a sua construção e os critérios por detrás da sua "heroificação" vai longo e não é de hoje. Não é minha intenção reavivá-lo aqui tendo como mote a proposta do Mapengo "Cristianização de Eduardo Mondlane" em lá no seu blog.

Proponho pois que peguemos a construção a volta dos nossos heróis e a usemos como plataforma inspiracional para os desafios do presente e do fututo. Como dizia ao Jonathan McCharty, proponho que ue renovemos o "Lutar por Moçambique" e coloquemos os ideais lá expressos ao serviço dos desafios do momento, proponho que usemos o que sabemos de figuras como Filipe Samuel Magaia herói (e outros)  em benefício das lutas que travamos pelo bem estar da nação, independentemente dos critérios que possam ter conduzido a sua heroificação.

Comentando o meu post anterior, o meu amigo Nelson Levingston veio colocar-me uma questão que motiva este novo post.

Dizia o meu inquieto (no bom sentido, aliás tão inquieto como eu) amigo que "Do breve post do amigo Mutisse chamou-me atenção o “esforço” de desassociar os heróis à FRELIMO (a frente), da Frelimo (o Partido) o que quanto a mim, nos ajuda a torná-los mais nossos(de todos os Moçambicanos) e dai ter uma visão mais “broad” deles, entretanto se tivermos em conta o papel da FRELIMO (a frente), e da Frelimo (o Partido), no processo da “heroização” dos nossos heróis fica difícil desassociá-los."

Com todos os erros que possam ter sido cometidos nos 10 anos de Luta de Libertação Nacional creio que há (ou devia haver) unanimidade quanto ao papel fulcral e libertador da FRELIMO (a frente) e das figuras que se destacaram nesse processo, inclusive, iniciado em 1962 com a fundação da própria frente. 

Mesmo que nos esforcemos, haverá como dissociar Mondlane, Magaia, Muthemba e outros da FRELIMO (a frente)? Creio ser difícil dado que o seu estatuto de herói radica no seu papel, na sua acção, nos seus actos na "frente" que culminaram com a conquista deste bem fundamental que é a independência do país.

Mas, independentemente dessas dificuldades, os heróis devem ser apropriados por todos os moçambicanos independentemente da filiação partidária. Mondlane, Samora, Magaia, Craveirinha, Chemane, Tazama e muitos outros devem ser venerados por todos independentemente das simpatias partidárias, da qualidade de membro da Frelimo (o Partido), do MDM, Renamo ou qualquer outro Partido ou organização.

Não existem, quanto a mim, heróis da Frelimo (o Partido). Existem figuras que, devido ao seu brio e aos altos serviços prestados à nação ou pela causa da Libertação Nacional, o Estado moçambicano (desde sempre liderado pela Frelimo - Partido) atribuiu-lhe a categoria de heróis, exemplos que devem ser seguidos por cada um de nós enquanto cidadãos deste país. Existem pois, figuras veneradas a nível do Estado, pelos moçambicanos e, inclusive - por que não - pela Frelimo (o Partido).

Creio que se conseguirmos unanimizar o papel da FRELIMO (a frente), olharmos o papel do Estado e assumirmos os actos praticados pelos órgãos do Estado como actos do Estado e não da pessoa (Partido) a quem está atribuído o poder de decidir/fazer, veremos os heróis, dos mais antigos aos mais recentes como NOSSOS heróis e não como heróis de um ou de outro.

Mas, devido à tentação de ao discutir os heróis, desembocarmos no questionamento da Frelimo (o Partido) e dos erros cometidos ao longos dos anos pos independência e da tendência de fugirmos deles, para discutir os erros que a FRELIMO (a frente) cometeu ao longo dos 10 anos de Luta de Libertação Nacional, proponho um exercício útil de buscarmos o que sabemos de cada um dos nossos heróis, contextualizar o contributo de cada um e aproveitá-lo nos desafios de hoje e amanhã.

O exercício que proponho (difícil é verdade, mas o que não é difícil em Moçambique?) é olharmos para essas figuras e questioná-las: quem és Magaia? Que feitos são te atribuidos que te tornam NOSSO herói? Que lições tiramos desses feitos seus, NOSSO herói, para os desafios do momento?

Penso que assim, podemos encontrar muitos pontos inspiracionais para os desafios de hoje e de amanhã. Se calhar, será desse exercício que encontraremos novos critérios para determinarmos quem, nos dias que correm, pode ser herói deste país, NOSSO herói portanto.



segunda-feira, 1 de junho de 2009

Renovando Herois - Renovando Desafios

A propósito do que apelida a "Cristianização de Eduardo Mondlane" PC Mapengo, lá no seu blog (Cartas a Moda Antiga), convida-nos à renovação dos heróis de modo a que estes se adaptem aos (novos) contextos.

Julgo ser um exercício interessante. Um exercício que permitirá um reecontro com o nosso passado como inspiração para os desafios do presente e do futuro.

Neste exercício, partiremos ao encontro dos nossos heróis indagando-os, criticamente, tendo como base o contributo a eles associado, para aferirmos como no contexto de hoje e do amanhã que almejamos, tal contributo nos pode inspirar e ser útil.

Neste exercício não indagamos os herois da FRELIMO (a frente), da Frelimo (o Partido), nem do Y ou do Z; indagamos os feitos de indivíduos cuja relevância determinou que o Estado, através dos seus órgãos apropriados, os elevasse a categoria de heróis. Esses senhores falam; dizem nos muito; é só sabermos ouví-los. Os feitos a eles associados podem ser contextualizados para os desafios que nos guiam hoje na perspectiva do amanhã.

Diz o Mapengo que a "celebração de 2009 como ano Eduardo Mondlane pode ter essa missão mas é importante ver como é que em pleno século XXI, na era da globalização, de mercados comuns, de HIV/SIDA e pobrezas absolutas, se pode aproveitar a imagem de Eduardo Mondlane como catalizador nas várias batalhas que o Estado tem que travar rumo ao tão almejado bem estar.

Neste exercício o Mapengo está convicto de no debate sobre herói, «o seu conceito assim como “quem deve ser herói"» não é novo e nem terá fim. Cada um ou cada nação, coloca seus requisitos, mas deve estar claro que os heróis têm esse papel de “inspirar”, são nossos exemplos e desejamos sempre que sejam imaculados. 

Diz o Mapengo que, "alguns historiadores, políticos e sociólogos ocidentais procuraram, principalmente no período da guerra-fria, reduzir “heróis” a países ditadores como se eles não precisassem deles."

Neste debate Amosse Macamo sugere-nos, e o Mapengo concorda, que este exercício de indagação e renovação deve ser feito "mas essa renovação, não pode ir para além do que foi a sua obra." Para Macamo "é fácil renovar constantemente Eduardo Mondlane. É fácil até criticá-lo sem matar a obra de vida que ele foi, é fácil olhar para o mesmo de todos os ângulos e encontrar em todos o Moçambique, porque ele lutou."

Será que conhecemos a dimensão da obra dos demais herois? O que podemos tirar deles?  O que significa reescrever a nossa história que tem sido propalada a cada facto novo que se agrega à nossa história? Que enfoque deve ser dado neste exercício? O que se pretende com tal exercício?

Mapengo acha que a "história, pelo menos a nossa, deve ser reescrita mas isso não significa deitar para o lixo tudo o que existe." Então aproveitemos o que existe como alavanca para os desafios de amanhã.