quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Responsabilização

Estamos a uma semana das eleições presidenciais, legislativas e das AP's. Estamos a uma semana de decidirmos a nova composição da AR, de decidirmos quem será o servidor público nº 1 da nação e a composição das Assembleias Provinciais.

Haverão vencedores!!! Haverão derrotados. De qualquer forma, como moçambicanos e patriotas, todos procuraremos (espero) levar este barco (Moçambique) a bom porto, contribuindo com o melhor do nosso saber para esse fim.

Há várias questões que me coloco quando penso naqueles que sairão derrotados (sejam eles quem forem):

  1. que consequências terão os resultados eleitorais nos partidos que não conseguirem alcançar os resultados a que se propuseram?
  2. Assistiremos, a exemplo do que acontece no PSD em Portugal, à convocação dos órgãos do partido para discutir os resultados eleitorais e traçar directrizes de actuação?
  3. Assistiremos a debates sobre a necessidade de novas lideranças como consequência do insucesso eleitoral?
  4. Assistiremos ao surgimento de candidatos para a liderança desses partidos com o desiderato de lhes darem nova dinâmica tendo em conta os pleitos que se seguem (autárquicas 2013 e gerais 2014)?
  5. Qual será a actuação desses partidos no pós eleições?
E o partido ganhador?

  1. De entre as várias recomendações explícita e implicitamente deixadas pelos eleitores, em cartas, nos blogs e várias outras plataformas, quais serão as prioridades?
  2. Que interacção haverá, que abertura haverá para que as ideias válidas dos derrotados, sejam tomadas em conta para o desiderato de desenvolver o país?
  3. Continuará havendo espaço para interacção, discussão e apresentação de ideias sobre o que vai bem ou mal no país?
  4. Que espaços devem ser criados, e que iniciativas devem ser reforçadas para que o cidadão participe e sinta, cada vez mais, que é parte de tudo o que se passa e do que não se passa no país?
  5. Que acções serão tomadas para despertar a cidadania e fazer cada moçambicano sentir-se incluso nas soluções que se pensam para os problemas do país?
Falta uma semana!!!

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Postura, Debate e Humildade (3)

Um dia, no blog do Josué Bila, escrevi que problemas no debate não se verificam apenas com relação à forma como interpelamos os que estão fora. Existem mesmo entre nós que estamos cá dentro (em Moçambique entenda-se). Dizia ainda que é por isso que muitos amigos, incluindo gente que está fora, bate-se por uma esfera pública onde se discutam as ideias de cada um independentemente de onde essa pessoa possa estar, do partido a que pertence ou, eventualmente, da ementa do jantar no dia anterior.

Para mim isto é essencial e era a mensagem que pretendia passar com o meu post anterior que, confesso, foi escrito de forma muito reactiva. É que, infelizmente, e não poucas vezes, voltamos sempre a mais do mesmo: rótulos.

Posso entender que o período eleitoral que atravessamos potencie uma certa ideia de competitividade no sentido de apresentarmos as ideias de quem apoiamos como as melhores mas, num outro prisma, neste espaço onde fervilham ideias de muitas mentes que reputo brilhantes a postura tem que ser outra. A minha filiação partidária não pode ser nem ser tomada como critério de validade de qualquer ideia que apresente.

Mais, entendo que não podemos nem devemos, em função dessa tal filiação partidária, nos rotularmos uns e outros de santos e/ou diabos. Da mesma forma que o José, sabiamente, afirma que "há patriotas convictos na Frelimo! De igual modo, há patriotas convictos na Oposição!"

É pois como "patriotas convictos" apoiantes da FRELIMO, MDM, RENAMO, PLD, PDD e outros que devemos vir debater e pensar o país.

Como disse ao Josué Bila um dia, a bem do debate não podemos fugir à qualquer questão que nos seja colocada. Estou ciente de que, em determinado momento, poderemos chamar a colação a condição de emigrante, membro de um determinado partido, originário de um local deste imenso país, residente daqui ou de outro lado mas, entenda-se, nunca para pôr em causa um argumento; os pontos de onde observamos o país não são meros espaços de permanência/residência/crenças/pertença; são espaços de experiências. Experiências que devidamente contextualizadas podem ser úteis ao país.

Vamos tornar as coisas fáceis. Como diz o Elísio Macamo num comentário ao Post anterior, "custa muito discutir e ao mesmo tempo expor o argumento de modo a que as pessoas não se interessem apenas por saber de que lado estou a falar, mas que sentido faz o que eu disse."

Mas continuemos a tentar. Eu pelo menos vou continuar.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Prostituição Intelectual e/ou Política (ainda a Postura, Debate e Humildade)

Nunca aqui na blogosfera, foi discutida qualquer ideia sem que entre o chavão “prostituição intelectual.” O mesmo, é colocado, sempre que alguém aparece com uma opinião contrária. Já clarifico; as opiniões certas em algum círculo da blgosfera são as contrárias à FRELIMO, sendo que, qualquer uma, que vá de acordo com os posicionamentos deste partido é, de imediato, conotada como a de um prostituto intelectual, de alguém com "pressão, mal-estar, prisão de ventre e problemas de coração" (usando algum palavreado do mais novo Shirangano) independentemente das razões que lhe assistem ou não.

Não quero tirar o mérito de quem usa e abusa deste chavão, dos motivos por detrás do uso deste, queria somente, chamar atenção aos factos na prática para depois voltarmos e rediscutirmos este tema.

O que diz a prática:

Assistimos há pouco, a um movimento desusado de membros do partido Renamo, que, cada um inventando seus motivos, correu para um divórcio litigioso, com o seu antigo partido.

Para alguns, a pressa no divórcio, foi tanta que, antes mesmo da dissolução do seu anterior matrimónio (com a RENAMO), já serviam o novo marido (MDM). (dispensamos os exemplos).

Este servilismo, foi acompanhado por todos, alguns, ainda tentavam esconder o óbvio mas, viajar e divulgar as supostas qualidades do novo companheiro, sem ter dissolvido o matrimónio com aquele era, para nós outros, revelador de uma total falta de carácter, escrúpulos, ganância, desejo irreprimível em querer o que é novo, mesmo que se desconheça esse novo. Para além disso é revelador de desprezo pelo antigo companheiro, ainda que este o mereça!

Outrossim, escreveram recados em forma de cartas explicativas para a imprensa, dissolvendo o seu matrimónio em público, como se, aquando do início de namoro, tivessem feito cartas para a imprensa. E não as fizeram, sabemos todos. E a pergunta que não cala seria: porquê é que o fazem e a quem, se justificavam?

Se fosse para o seu anterior companheiro, que sentassem, na mesma mesa onde antes contrataram, para falar. A fazerem-no em público, tentavam lavar suas imagens, perante nós, o povo. E de novo, outro questionamento: faziam-no por respeito ao povo, ou por mera descarga de consciência?

Esqueciam-se estes, que estavam a lavar a roupa suja em público, o que é contrário, ao princípio secreto do seu namoro.

Alguns, chamaram nomes ao antigo marido, digo partido, claro, bajulando o novo de democrata, como se não o fosse, qualquer novo companheiro que está ainda na fase da conquista.

Outros, os mais perigosos, porque não sabem o que vai produzir este novo marido, não o assumem claramente, ficando porém a alimentar as suas expectativas, esperando, pela possível bonança, para se declararem.

Os que ficaram com o antigo companheiro, digo partido e lembro aqui a propósito, as declarações do Viana de Magalhães, justificavam-se dizendo que “não somos prostitutos políticos”.

Assim respondiam, ainda que implicitamente, aos seus colegas, que logo que viram o novo, saíram a correr. E talvez perguntasse eu que tenho a mania de perguntar: e se daqui há dois anos assistirmos ao nascimento de um novo partido com tentáculos fora de Moçambique? Será que estes mesmos, não se comportarão nos mesmíssimos moldes que se comportam hoje?

Os novos Messias da rotulagem surgem de entre estes ou dos que, indistintamente, os apoiam. Na ânsia de nos terem a cantar de galo fazendo-nos crer no seu evangelho, ter opinião contrária como tocar batuque e comer maçaroca passou a ser pecado mortal; passou a haver necessidade de escopro e martelo para os entendermos e se posicionarem.

Bom, deixemos, isso, mas talvez, seja agora, a altura certa, para vermos o conceito de “prostituto.”

Mas antes, digam-me senhores, é proibido ter convicções políticas nesta terra sem quem nos chamem nomes depreciativos, sem nos adjectivarem?

Porque o apoio de milhares de pessoas à FRELIMO e seu candidato é tomado como significando luta para não “perder o pão e água?” (palavras emprestadas de Shirangano).

Porque é que os que não morrem de amores pela FRELIMO se outorgam ao direito de se apresentarem como Messias cujas opiniões devemos, nós os apaixonados pela FRELIMO, tomá-las “do tipo abrir os olhos aos cegos”? (palavras, novamente, emprestadas de Shirangano).

O que é que cria tanta intolerância com os que se identificam com o partido FRELIMO?

Acreditam mesmo que muitos dos apoiantes da FRELIMO que dão a cara dependem do "pão" dado por esta formação partidária?

Não acreditam que se apoie um partido, seja ele qual for por convicção? Ou a FRELIMO é o único dador de “pão e água” e/ou com potencialidades de sê-lo o que retiraria desta categoria de caça “pão e água” os apoiantes de outros partidos novos ou antigos?

Acreditam mesmo que muitos dos jovens fervorosos apoiantes do Partido FRELIMO estão a procura de um lugar ao sol na função pública ou algo que o valha em substituição dos seus empregos no sector privado, ou das suas empresas onde decidiram empreender?

O que faz crer a quem não está com este partido, que está com a verdade?

Porque será que os que não apoiam a FRELIMO se tomam a si mesmos como os puros, os que fazem tudo por convicção, despegados de qualquer interesse, e aqueles que destilam verdades em contraposição com as mentiras dos outros? (para o meu amigo Shir, são mesmo opostos, puros, "especificamente, repito, especificamente os partidariamente descomprometidos (se concordares que existem), pois estes não se deixam mover por amor partidário que cega e torna hipócrita, apenas vêem a realidade como ser humanos, comovem-se, emocionam-se e emitem a sua opinião com base nisso" - God uffffffff. Santíssimos senhores... hein)

Ser da FRELIMO seria sinónimo de não mais discutir ideias? Não errar e/ou acertar na discussão dessas ideias?

Mas bom, voltemos a prostituição e, atendendo ao referido acima, dito por gente mais ilustre do que nós outros, pode afirmar-se que: não é de descartar a hipótese de existirem prostitutos na FRELIMO, mas o MDM e pelos factos acima, representa, na categorização reinante, um verdadeiro viveiro de meretrizes da política.

Valerá a pena a esta fase conceitualizar prostituição intelectual/político?

Abraços aos fazedores de ideias. (lembrem-se, discuti aqui ideias). Chamo atenção ao que disse aqui

terça-feira, 6 de outubro de 2009

MDM Virou o Disco!

Na sequência do debate iniciado aqui o meu amigo Obed L. Khan enviou-me por email, um pedido de Tadeu Phiri (seu amigo), para que coloque ao crivo dos visitantes deste blog, as suas ideias e visões sobre o MDM e as suas argumentações em face dos últimos acontecimentos.

Quer me parecer que o Phiri pode ter razão no que diz mas, vejamos.

MDM virou o disco!

Por: Tadeu Phiri

É impressionante como este partido tem mudado de versão em versão a justificação da sua exclusão da corrida eleitoral. Para ele todas as desculpas valem, desde que sirvam para, pelo menos, tapar o sol com uma peneira. Desde que se iniciou a sua campanha de desinformação e descredibilização da CNE, sempre usaram o fundamento de que a CNE não seguiu os procedimentos de notificação para o suprimento das irregularidades.

Depois de lerem os acórdãos do Conselho Constitucional e se terem apaercebido de que, afinal, a CNE havia sido benevolente com eles ao ponto de lhes ter dado a oportunidade de corrigirem irregularidades que não tinham o direito de corrigir, viram todos os seus argumentos caídos por terra.

Mas porque não têm a humildade mínima para aceitar a democracia como um modelo político que consiste em aceitar a derrota, tentam a todo o custo encontrar culpados pela sua incúria, incompetência e ambição desmedida. Estão sempre a arranjar desculpas e, curioso, todas esfarrapadas.

De acordo com a lei eleitoral, todos os documentos relativos ao processo de candidatura deveriam ter sido entregues até ao dia 29 de Julho de 2009. Todos os processos com documentos em faltam deveriam ter sido rejeitados. A CNE aceitou os documentos beneficiando ao MDM mas violando a lei. Ainda notificou ao MDM para trazer os documentos em falta depois de o prazo ter findado.

Foi por isso que, repondo a legalidade, o Conselho Constitucional anulou as notificações da CNE que permitiam que, ilegalmente, o MDM entregasse documentos em falta, já fora do prazo legal.

Isto significa que, através dos acórdãos do Conselho Constitucional, ficou claro que o MDM foi o único culpado pela sua exclusão por ter entregue à CNE candidaturas com documentos em falta.

Aliás, foi por isso que o MDM andou a cantar aos quatro ventos que entregou todos os documentos à CNE. Só não diz que entregou outros documentos já fora do prazo, isto é, depois do dia 29 de Julho de 2009 e que os mesmos foram rejeitados pelo Conselho Constitucional por extemporaneidade.

Foi essa a razão da exclusão do MDM: entrega de candidaturas às 15:20 horas do último dia do prazo. Daí que só podia entregar os documentos em falta depois de passar o prazo. Se tivesse tido o cuidado de entregar as candidaturas cedo teria tido oportunidade de entregar os documentos em falta ainda dentro do prazo que terminava no dia 29 de Julho de 2009.

Agora que todos os seus argumentos foram esgotados, inventa uma nova desculpa: Entregou todos os documentos no dia 29 de Julho e não faltava nenhum documento. Os documentos em falta foram roubados pela CNE! Sinceramente! Porque é que não acusou à CNE de ter roubado os documentos logo que foi notificado para entregar os documentos em falta?

O MDM entregou documentos em falta porquê? Porque é que não disse que já havia entregue? Porque é que, aquando da sua reclamação para o Conselho Constitucional não alegou o tal desvio de processos? Este camaleão mudou tanto de cores que já não lhe restam mais cores. Agora começa a inventar cores.

Ao inventar esta desculpa o MDM deu um tiro no seu próprio pé. Porquê? Justamente por estar em contradição com as suas cartas em que pedia à CNE para entregar documentos em falta. Na verdade, num dos três documentos que o MDM distribuiu aos doadores, jornalistas e sociedade civil, na Conferência de Imprensa que deu para reagir ao acordão do CC, o MDM reconhece que não entregou todos os documentos. É estranho como os dirigentes deste Partido são distraídos e nem lêm as cartas que andam a divulgar.

Com efeito, na carta do MDM de 15 de Agosto, recebida na CNE a 17 de Agosto, este Partido diz textualmente: “... junto enviamos a documentação em falta nos processos do MDM, em vosso poder, de acordo com a sequência arrolada na matéria objecto de suprimento por cada candidato por V. Excias:

...

Círculo Eleitoral de Cabo Delgado

1. Jerónimo Artur – Processo Individual

2. Miguel António Suquir – Processo Individual

3. ...”

É importante referir que, para este círculo eleitoral, a falta dos processos individuais destes dois senhores é que fez cair a lista toda. E o MDM reconhece isto na própria carta que distribuiu aos jornalistas, diplomatas e sociedade civil. Mais ainda, este Partido está consciente de que esta lista em particular ia cair. É por isso que, na mesma carta sugere o seguinte: “Para este círculo (Cabo Delgado), dada a dificuldade de contacto com o senhor Armando Branco (22 acima), no prazo estabelecido na notificação acima mencionada, junto remetemos a V. Excias., os processos individuais dos senhores Dale Alfredo Alamo, Alima Latifo e Arusse Norberto para suprir a ausência do sr. Branco e reforçar a lista de suplentes...”

É caso para perguntar: (i) os dois processos individuais “em falta” que enviam tinham sido roubados pela CNE? (ii) Se só não localizaram o sr. Branco porque enviar mais dois processos “para reforçar a lista de suplentes”? (iii) também tinham sido roubados esses três processos adicionais? (iv) O MDM ainda estava a tempo de enviar esses novos processos todos? (v) Porque este Partido mente assim tanto? (vi) Se mente nestas coisas “pequenas” como podemos acreditar nas suas promessas eleitorais?

Caros moçambicanos, a leitura dos documentos que este Partido distribuiu na Conferência de imprensa estabelece sem margem para dúvida que as suas alegações de que os seu documentos foram roubados na CNE são falsas.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Postura, Debate e Humildade

O Mapengo, no seu blog, escreveu mais uma carta ao nosso amigo Virgílio Sithole na qual, entre outras coisas, se insurge contra "as visões unilaterais dos nossos comentaristas e jornalistas que se despem da “imparcialidade” e escolhem alvos a abater." Para Mapengo "os nossos comentadores escolheram dois alvos a abater, CNE e Conselho Constitucional. Transformaram os partidos políticos em vítimas dessas duas instituições ilibando-os de quaisquer erros. Eles são mais limpos que a virgem Maria."

A carta em alusão foi largamente debatida aqui e por email, tendo como principal alvo o Eng. Venâncio Mondlane que, na carta em alusão, é referido como "o comentarista mais concorrido de momento" que, "no seu esforço de neutralidade apareceu na STV a fazer um recorte daquilo que ele considera o mundo. Para ele em nenhum tribunal do mundo não se tomam decisões até altas horas, ou fora do horário normal do trabalho. Deixava claro que o que ele nunca ouviu ou viu é porque não existe."

O debate, se calhar pela referência ao Eng. Venâncio (pessoa que muito respeito e de quem tenho o maior apresso) e, também, pela sua performance num telejornal recente, centrou-se neste comentador até, por email, o Noa vir pôr água na fervura secundado pelo Nero AK47 este argumentando e sugerindo que "não criemos mártires. Aproveitemos o que de bom se pode aproveitar do comentador cujo intervenção televisiva está sendo objecto deste debate. Ele não deixa de ser um bom orador. Não o ataquemos. Corrijamo-lo e ajudemo-lo a ser melhor do que já é."

A minha resposta ao email do Nero deu azo a que pensasse na nossa postura no debate de ideias. O que é que deve nos guiar? Como devemos nos apresentar? Que atenção devemos dar a quem nos ouve? Como devemos interagir com outros participantes? Que cuidado devo ter no que digo? Que atenção devo dar a forma como a minha mensagem é ou pode ser percebida/recebida?

Como um dia disse Patrício Langa, "envolver-se no espaço de debate crítico de ideias em Moçambique é como correr com um cesto de ovos a cabeça. Temos que ser bons equilibristas para não, os deixar cair, ferir susceptibilidades. As susceptibilidades são tão frágeis quanto os ovos que levamos a cabeça." Eu diria mais, temos que ser responsáveis. Tudo o que dizemos tem repercussões e, numa sociedade onde, do nada, viramos autoridade no que dizemos, há que ser mais comedido sob o risco de nos perdermos e provocarmos revoluções fundadas no nada.

Foi isso que sugeri quando comentei o email do Nero. O espaço de debate não pode e nem deve ser uma passarelle onde cada um se exibe e quer ser o maior. Tem que ser um espaço de reflexão onde exercemos a nossa cidadania e despertamos outros a fazerem o mesmo.

Como diz Patrício Langa, "a sociedade se constitui no debate. O debate crítico é, acima de tudo, o mecanismo essencial para melhoria da qualidade da nossa esfera pública." Temos que cultivar este debate.

Mas ao cultivar o debate, temos que evitar o monopólio da verdade, de modo a evitar intolerância entre nós e/ou atitudes de mera altivez como muitas vezes temos visto. Temos que matar a tendência crescente de que os nossos pontos de vista, as nossas ideias são autênticas revelações. Como diz Elísio Macamo "quem se julga detentor da verdade é que se torna intolerante e fanático nas suas posições. Quem duvida não fica envergonhado por ter abordado um assunto de uma determinada maneira e ter sido provado enganado. Ele rigozija-se."

Como comentou um dia o Bayano no blog do Patrício, " houve em tempos uma grande discussão sobre o direito à liberdade de expressão nos eua e uma questão que se colocava era de saber até que ponto qualquer ideia podia ser veiculada na esfera pública. Por outras palavras, que valor devia ela ter para ser considerada como ideia? deves estar a imaginar a salada de opiniões que isso ocasionou. O que saltou ao de cima foi que justamente por isso mesmo é que as ideias devem competir no mercado de ideias até a melhor ideia sobressair - evidentemente, que amanhã poderá não ser a melhor ideia, mas a beleza do debate reside ai."

Sou também por uma postura sã no debate de ideias.




terça-feira, 29 de setembro de 2009

Finalmente... o Acórdão do CC: Pura Ciência

A ansiedade tomou conta dos moçambicanos durante o dia de ontem. Aposto que muitos, como eu, maltrataram o controlo remoto mudando de canal no cardápio televisivo para aferir se do CC vinha "fumo branco" ou não. E veio.

Face a fundamentação dos acórdãos, gostaria de saber se as ondas protestativas (esta palavra existe? Se não acabo de a inventar) continuarão tsunamísticas ou, se pelo contrário, irão amainar.

Deixo aqui o acórdão do MDM (outro aqui), aqui o do PARENA e aqui o do PIMO.

O Direito é uma ciência linda. Quem não acredita que leia esses documentos se faz favor. A CNE e seus juristas meteram água é um facto (refiro me a esse "aguaceiro") no próximo post to LEGAL.

Vamos voltar a falar?

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Viciação Artificial de um Processo Eleitoral O Papel Indecoroso de Algumas Chancelarias (2)

Continuando o debate iniciado com o artigo de Obed L. Khan no post anterior, introduzo aqui um artigo publicado aqui da autoria de Jalaludino Ossufo (?) que trás mais elementos para esta "fogueira" de debate. Nele se aborda a ingerência nos assuntos internos de Moçambique por parte de algumas chancelarias, num acto "Desafiador do Direito Internacional Público".

Vale a pena ler, nem que seja pela noção de soberania que todos devemos ter.

Prossiga o debate.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Viciação Artificial de um Processo Eleitoral: O Papel Indecoroso de Algumas Chancelarias

Do meu amigo Obed L. Khan recebi, por email, o texto que, com a devida vênia ao seu autor, publico aqui neste espaço.

Viciação Artificial de um Processo Eleitoral

O Papel Indecoroso de Algumas Chancelarias


Obed L. Khan

Introdução

Que factores determinam o actual cenário de ruído e gritaria prevalecente em alguns sectores políticos, da comunicação social e da blogosfera?

Que factores determinam o protagonismo excessivo de algumas representações diplomáticas, algumas vezes eivado de autêntica grosseria e visível ingerência em assuntos internos, em violação das convenções que regem as relações diplomáticas entre Estados soberano, como aquele que nos tem dado a assistir por Todd Chapman, que nem sequer Embaixador é, um simples Encarregado de Negócios dos Estados Unidos da América?

Haverá ou não, por parte de alguns sectores externos, tentativas evidentes de, logo de início, desacreditar o processo eleitoral em curso e destabilizar Moçambique? Existem algumas evidências que apontam para um esforço concertado de desacreditação para depois se lançar a destabilização?

Este artigo pretende responder a algumas destas interrogações e contribuir para que o nosso país venha a ter eleições livres que, mais do que a interesses de potências estrangeiras, responda aos mais genuínos anseios do povo moçambicano. Mais, que Moçambique seja um país em paz.

Antecedentes

Há antecedentes para esta gritaria e ruído protagonizado por alguns sectores externos que, agora se esforçam para moçambicanizar um problema que é seu.

O primeiro deles é a exclusão, com base na Lei, de alguns candidatos que se haviam proposto concorrer às eleições presidenciais.

Um grande número de concorrentes, alguns deles veteranos nestas lides, foram impedidos de concorrer às eleições presidenciais por manifesta agressão aos procedimentos legais. Relatam-se casos de alguns desses candidatos que, fraudulentamente, pegaram mapas de eleitores publicados pelos órgãos eleitorais e, sem consulta com os visados, forjaram assinaturas e impressões digitais e submeteram-nos ao Conselho Constitucional.

Foram, logicamente, chumbados e, esperamos, responsabilizados criminalmente. No geral, a decisão do Conselho Constitucional foi aceite sem muito ruído, pese embora o espanto e a admiração que causou. Era a primeira vez que se passava um pente fino aos processos apresentados pelos candidatos.

O segundo antecedente surgiu duma percepção pública deturpada da decisão da Comissão Nacional de Eleições.

Circulou em alguns meios, incluindo na blogosfera, a notícia de que apenas três Partidos haviam sido aprovados para concorrerem nas eleições legislativas e provinciais.

Esses Partidos seriam a FRELIMO, a Renamo e o MDM. Este entendimento errado caiu bem na opinião pública. Circularam inclusivamente comentários de que estefiltro permitiria uma escolha menos dispersa dos eleitores. Partidos como o PIMO, o Partido Trabalhista, o PDD e outros foram ridicularizados nesses sectores, devido à sua falta de capacidade e de organização.

Factores Determinantes da Gritaria e do Ruido

A mudança de atitude, por parte de alguns sectores internos e externos dá-se quando se percebe que o rigor dos órgãos eleitorais havia atingido um Partido que é percebido como um virtual sucedâneo da Renamo no espectro político moçambicano ou como dizia um cidadão “a metamorfose da perdiz que se traduziu em galo como resultado dos 17 anos de domesticação”.

A indignação que a exclusão desse Partido suscitou cegou e retirou objectividade política aos nossos diplomatas estrangeiros que, alertados de que estavam a ingerir grosseiramente em assuntos internos de um Estado soberano, trataram de recrutar altifalantes nacionais, aqueles que não se envergonham em vender a sua dignidade e o pais a troco de algumas palmadinhas e uns trocos em apoio de seus projectos insustentáveis.

Não vi até agora um esforço para entender com rigor analítico os factos que originaram o furor e a zanga dos nossos diplomatas.

Organizar processos eleitorais não é uma empreitada fácil. Requer estrutura, disciplina e organização.

Os dados em presença indicam que alguns desses requisitos não estiveram presentes, particularmente no MDM. Este Partido surgiu em finais do ano passado. Embora tenha conseguido capturar alguns delegados e algumas sedes da Renamo, o MDM não se apoderou da estrutura da Renamo.

Pode ter alguns delegados provinciais e, até, distritais, mas não possui ainda uma máquina com capacidade e vocação de seleccionar candidatos em todas as províncias e em todos os distritos para as eleições legislativas e provinciais. Uma máquina para recolher, verificar e arquivar devidamente processos individuais relevantes para qualificar candidaturas. Muitos quadros ainda estão relutantes em abraçar este novo Partido.

O Presidente pode telefonar hoje e convidar alguém para Candidato. Esta pessoa aceita. É inscrita nas listas. Mas, algumas semanas depois, quando é procurada para entregar a documentação requerida, essa pessoa pode não ser encontrada. Por conveniência própria. E é preciso telefonar para outros. E o ciclo se repete. Não existe uma delegação do Partido eficiente e eficaz para monitorar estes processos.

O que se descreveu acima reflecte as deficiências de estrutura deste novo Partido. As informações que circulam com insistência revelam que este Partido não esteve organizado também.

Por exemplo, um dos mais dinâmicos activistas, depois de haver entregue os processos na CNE, mandou o seu empregado lavar o carro. Este encontra dentro do carro caixas que se veio a descobrir serem os documentos que validavam as listas entregues.

As caixas são encontradas fora do prazo em que deveriam ter dado entrada na CNE. A carta enviada pelo MDM à CNE, a solicitar que se autorizasse o mandatário a digitar as listas nos computadores daquele órgão deve resultar deste facto.

Ou seja, tudo parece indicar que o MDM apresentou listas incompletas, desorganizadas e sem condições para qualificar candidaturas nos círculos eleitorais em que foi desqualificado. E organizar devidamente as listas não é tudo. É necessário que as mesmas sejam finalmente eleitas. O que não estava garantido, com alguns círculos a revelarem grandes debilidades.

Há inclusivamente suspeitas já publicadas de que o MDM estava consciente das suas fragilidades. E que, por isso, esmerou-se na organização das listas das províncias onde entende ter melhor implantação (Sofala, Zambézia, Cidade de Maputo e Niassa) e que, propositadamente, desorganizou os processos das outras províncias para serem chumbados.

O objectivo seria capitalizar na reprovação, projectar uma imagem de vítima e, deste modo, elevar o seu perfil nacional e internacionalmente. Esta percepção não é de todo descabida sabendo que a vitimização foi a estratégia intuitivamente adoptada por Daviz Simango nas eleições autárquicas na Beira.

Pressão Indecorosa de Embaixadores Estrangeiros

Tenho a impressão de que a posição da CNE é, na substância, inatacável do ponto de vista legal. Só esta suposição é que pode justificar as posições camaleónicas dos nossos amigos diplomatas.

Com efeito, nas suas grosseiras pressões, falam de tudo, menos do respeito pela legalidade. E isto é estranho vindo dos nossos amigos europeus e americanos. Estes países insistem em que fundaram as suas instituições políticas na base do respeito escrupuloso da lei, e que o seu desenvolvimento, prosperidade e bem estar social provêm desta perfeita simbiose entre as instituições políticas e a legalidade.

Nos últimos vinte anos vêm pregando este novo evangelho com inspirado vigor. Subitamente percebemos uma dramática mudança nas suas práticas.

As declarações de Kari Alanko, Embaixador Finlandês em Moçambique, embora menos grosseiras e menos mal educadas que as de Todd Chapman, fotocópia do Dennis Jett, seu conterrâneo, são sintomáticas neste aspecto. Ele fala dos princípios gerais de democracia que, segundo ele, são a liberdade, a justiça e a transparência. Não há nenhuma alusão ao respeito pela legalidade. Mesmo procedimento havia sido seguido pelo Diplomata americano quando introduziu o conceito da “inclusão” no dicionário político moçambicano sem, porém, sobre ele elaborar no mais mínimo.

É caso para considerar que estes nossos amigos devem acreditar que existe uma democracia para europeus e norte-americanos, que se funda no respeito pela lei e uma democracia para pretos que seria gerida na base de um confuso, subjectivo e curioso conceito de “inclusão”.

Desta vez os nossos amigos diplomatas não falaram da alternância como um dos princípios gerais da democracia, sem a qual as eleições não podem ser percebidas como livres e justas. Ainda não começaram a falar do GUN. Mas tudo leva a crer que lá chegaremos como aconteceu nos tempos de Dennis Jett.

A FRELIMO, juntamente com o MPLA, o Chama Cha Mapinduzi, o ANC, a SWAPO e a ZANU, tem a sua génese no movimento libertador que ousou desafiar a supremacia branca na região. No seu conjunto, estes Partidos estão imbuídos de um espírito fortemente nacionalista orientado para uma dignificação cada vez mais crescente dos africanos. Estes Partidos olham para os recursos da região, nomeadamente a terra, os recursos minerais, os recursos marinhos e outros como devendo beneficiar, em primeiro lugar os nossos povos.

A permanência no poder destes Partidos é uma afronta às estratégias hegemónicas de poderes estrangeiros. Daí a aposta na sua demonização e consequente derrube e pulverização.

Assim foi na Zambia com a UNIP. Processo similar está em marcha no Zimbabwe com o desejado enfraquecimento da ZANU-FP. Portanto, quando poderes externos não se coíbem de desafiar, desacreditar e vilipendiar as decisões de um órgão independente como a CNE só podemos nos perguntar o que estará atrás dessas atitudes.

Quando embaixadores estrangeiros pedem ao Presidente da República para, fora dos parâmetros da lei, intervir e declarar nulas as decisões de um órgão independente como a CNE só podemos nos perguntar que interesses se perseguem.

Quando no âmbito do diálogo político com o Governo os mesmos embaixadores chantageiam o país com eventuais cortes de ajuda, para forçar uma intervenção irregular deste sobre a CNE e sobre o Conselho Constitucional só podemos dizer que se perdeu a vergonha, o decoro e o respeito pelas regras diplomáticas.

Quando embaixadores de países estrangeiros emitem declarações regulares para pressionar e intimidar o Conselho Constitucional só podemos concluir que o rei vai nu. E, finalmente, perguntar: o que faz correr a “comunidade internacional”?

Sinais de que se Pretende Descredibilizar o Processo

Há indícios de que se pretende forçar uma situação de crise política e de caos e finalmente destabilização.

O primeiro sinal pode ser obtido do esforço sistemático de demonização da CNE, quer nela própria como instituição, quer nas pessoas dos seus componentes, em especial o seu Presidente.

O segundo sinal pode ser obtido da pressão indecorosa sobre o Conselho Constitucional e dos apelos para que não seja acatada qualquer decisão que não vá de encontro às pretensões dessas chancelarias.

Um terceiro sinal pode ser encontrado na forma como um processo eleitoral geralmente pacífico está a ser relatado por alguns sectores da imprensa nacional e internacional, a mando destes diplomatas zangados.

Quem não está no terreno é levado a pensar que sempre que um militante do MDM sai à rua é agredido. Que a campanha eleitoral está a ser condicionada por uma violência institucional semelhante àquela que nos foi relatada sobre o Zimbabwe.

Pretende-se, em minha opinião, criar todas as condições para a rejeição dos resultados cujo vencedor qualquer pessoa minimamente informada conhece antecipadamente por virtude de um trabalho de grande mérito que realizou ao longo de todo este quinquénio. Neste sentido, o trabalho jornalístico de um semanário local que sai às sextas-feiras é um manual completo de como se constrói artificialmente o caos e a destabilização.


PS. Os nossos parceiros zangados devem recordar-se que o que nos dão não é almoço grátis. Teremos que pagar de forma directa como divida ou nos meios diplomáticos votando a favor da sua candidatura em organismos internacionais...

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Meu País, Minha Gente





Estou em Maputo depois de uma semana no Niassa. Quando pensamos nos constrangimentos, por exemplo, resultantes da escassez de informação devido a deficiente distribuição de jornais como acontece em Maputo ou da desgrassa das vias de acesso para muitos pontos, podemos achar que 7 dias é tempo demais no Niassa, é um perfeito aborecimento; mas há que encontrar motivos de interesse.

Encontrei-os na simpatia das gentes lá do sítio. No rever amigos que a missão de desenvolver o país a partir do distrito colocou-os por lá. Na descoberta de que, dependendo da nossa atitude, podemos nos sentir em casa em qualquer lugar. No reafirmar que as províncias de Moçambique não são compartimentos estanques: há gente do norte vindo e vivendo no sul, há gente do sul indo e vivendo no norte, há gente de Gaza que tem, no Niassa, a sua casa, a sua terra.

Encontrei motivos de interesse ao contemplar a beleza que, muitas vezes, nós que nos alvoramos donos da terra desconhecemos. As fotos em anexo falam por si. Notem que são da praia de Chuenga, se troxesse de Meponda que, DIZEM, é ainda mais lindo causava um éxodo para as terras que o camarada Bimbe dirige há 5 anos.

Encontrei motivos de interesse ao contemplar o que, pelos jornais, parece quase impossível pela forma como publicitamos a violência entre partidos: em Metangula, a sede do MDM e da FRELIMO, praticamente, dividem paredes e, nesta época de campanha, a azáfama é grande. As pessoas dos dois partidos, riem umas com as outras, lançam piadas e conversam como verdadeiros irmãos que são, sem que (ao que vi) haja qualquer conflito.

Encontrei, pelo que disse no parágrafo acima, motivos de interesse ao pensar e concluir que a violência é, provavelmente, uma tática (perigosa - diga-se) que se usa para chamar atenção. Parei e pensei em quantos outros pontos do país se multiplicam sedes de partidos diferentes vizinhas entre si, sem que as pessoas ande à paulada.

Este é o meu país. Lindo, pacífico com as suas polémicas. Mas lindo de matar.

Alguém duvida?

PS: Irão reparar que mudei a foto do perfil. A beleza de Niassa inspirou-me a declarar 2009 como o nosso (eu e a Uly na foto) ano. Ela completou 10 anos de vida este ano e, eu, 10 anos desde que fui pai pela primeira vez. Bom pai diga-se... não preciso que mo confirmem ou digam. SEI (já diz a minha mãe - sábia mulher que nem se quer fala português - se não tiveres certezas sobre as coisas mais importantes da sua vida, ninguém as terá por ti. Crie...).