quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Os Nossos Compatriotas Zangados (3) As Vítimas

Depois de Gonçalves Matsinhe ter publicado o primeiro e o segundo números desta série intitulada "os nossos compatriotas zangados," (aqui e aqui) prossigo deste lado publicando o terceiro número sobre "As Vítimas." Chamo este assunto para aqui depois que li e comentei o post do meu amigo José aqui.

Os Nossos Compatriotas Zangados (3) As Vítimas

Por E. Macamo

Solenes e desolados/os montes emergem/mais graves e escuros. Continuo fascinado com Fernando Couto. Neste verso ele fala da neblina, aliás, ele fala dos montes que ficam visíveis quando a neblina se vai. Um véu de neblina/encobriu o vale, todo o vale:/ilusão de água e silêncio/lugar de engano. É neste contexto que os montes emergem mais graves e escuros. Todo o vale é morto/e nem as vozes ecoam/em descanso, os pássaros/resignados esperam/para retomar voos e cantos. Aqui Fernando Couto engana-se. Os pássaros não estão resignados, nem estão à espera para retomarem voos e cantos. Quando os montes emergem mais graves e escuros, os nossos compatriotas zangados gostariam de não mais retomarem voos e cantos que sejam. Eles gostariam que fosse verdade a sua convicção de que estão a lidar com gente má preste a fazer o pior.

Este é talvez o aspecto mais deprimente da constituição política dos nossos compatriotas zangados. Eles usufruem da liberdade de expressão que vamos aprendendo a praticar no país, apesar de toda uma tradição histórica autoritária fomentada por alguns desses compatriotas zangados, e mesmo assim insistem que essa liberdade é uma ilusão. Para falarem livremente precisam sempre de levantar o espectro de um país onde a distância crítica em relação aos detentores do poder é paga com a vida. Quando eles falam, aliás, para eles poderem falar precisam de preparar o terreno. E o terreno que preparam é um terreno cheio de cadáveres de homens e mulheres íntegros que foram tombando assim que abriram a boca para falar a verdade. Se alguém, à excepção deles, claro, critica e mesmo assim não lhe acontece nada, não corrigem as suas convicções. Acham que essa pessoa deve estar feita com o poder. Para falar de forma impune é porque teve a autorização do poder.

Assalta-se a redacção de um jornal qualquer, grita-se logo “querem nos silenciar!” como se fosse realmente possível, nos tempos de tecnologias de informação que vivemos actualmente, silenciar seja quem for. Se ultrapassam os limites da liberdade de expressão e o poder judicial se coloca na sua peugada, gritam até ficar roucos que estão a ser perseguidos. Exclamam, com razão – diga-se de passagem – que os nossos tribunais só funcionam quando são eles. Mas, claro. Cada regime tem as suas prioridades. Não se preocupam em verificar os detalhes concretos da lei para perceberem porque a Procuradoria Geral da República levanta esta ou aquela acusação. É logo socorro! Se não são convidados a irem falar mal do governo em algum órgão público de informação, ficam amuados e começam a desfiar as suas teorias de conspiração. Se alguém morre e estava ligado ao poder, especulam quem estará por detrás da sua morte. O que sabia ele, indagam-se.

Não tenhamos ilusões. O nosso país é muito violento. O crime faz das suas. A pobreza exacta também as suas vítimas. As doenças, as dificuldades com a técnica e a civilização fazem também das suas. Há também gente muito rancorosa em alguns dos nossos órgãos de soberania. Na polícia, no exército, nos serviços de segurança do estado. Sobretudo a nossa polícia continua com enormes dificuldades de interiorizar que a sua função é de defender o povo, que a segurança do povo está acima da necessidade de prender criminosos. Nenhuma vida humana pode ser sacrificada só porque se estava na peugada de criminosos perigosos. Há gente inocente que vai morrendo por aí em resultado deste mau jeito. E é grave que os agentes responsáveis por isso não sejam trazidos à justiça. Os sindicatos da droga e suas possíveis ligações com gente menos idónea nas hostes do poder não são feitos de gente pacífica. É gente violenta e sem escrúpulos. Pode matar. E mata.

Portanto, morre-se no país. Mas não se morre por criticar. Nem mesmo quando a crítica é mal formulada, como é quase sempre quando se trata dos nossos compatriotas zangados, se coloca a vida em perigo. Quando muito, perdem-se oportunidades. E isso é normal em todo o mundo. O nosso país não ficará mais tolerante e democrático no dia em que o governo do dia vai promover os críticos, organizar as suas festas de aniversário e bodas de prata. De resto, se um governo fizesse isso os próprios críticos não gostariam. Diriam que estão a ser comprados como, aliás, têm dito quando alguém que eles consideravam crítico “assume funções” como se diz entre nós.

Enfim, é difícil ganhar neste ambiente envenenado. Malditos se eles matam; malditos se eles não matam. Mas como diz Fernando Couto: É Outono e o sol há-de voltar. Sim, é a liberdade de expressão, mas a censura há-de voltar se mais não fosse para dar alegria aos nossos compatriotas zangados.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Machado Da Graça, Um Messias Contra Os Seus Jovens Discípulos

Fechamos o ano debatendo um texto do Tadeu Phiri aqui (um debate que será retomado no sentido sugerido pelos 3 últimos comentários). Para desejar "boas entradas" a 2010 na melhor que o Phiri de novo com novo tema que deve merecer nosso crivo aqui.

Porque é que, com o tempo, as vontades mudam tão radicalmente?

Machado Da Graça, Um Messias Contra Os Seus Jovens Discípulos

Tadeu Phiri

Muitos de nós crescemos a ouvir e a ler as arengas patrióticas de Machado da Graça. Na verdade, este digno jornalista foi um dos mais entusiastas arautos da Revolução, do Homem Novo e da Ditadura do Proletariado. Lê-lo e ouvi-lo a defender estes ideais era um regalo.

Lembro-me, por exemplo, da crónica triste que escreveu aquando da aprovação da nova constituição multipartidária dizendo “para muitos deputados que acabavam de aprovar o novo texto constitucional, como para mim, na modesta cabine da Rádio Moçambique, aquilo que acabava de ser aprovado na sala era, por um lado, o desfazer de um sonho de juventude, a falência, pelo menos para já, de um projecto lindo...” (Crónica O Virar da página, de 30 de Outubro de 1990).

Em minha casa, todas as sextas-feiras depois do noticiário das 12.30 horas, o meu pai, que era um dos seus grandes admiradores, ordenava um silencio quase sacramental para ouvirmos em família este porta-voz oficioso a ler, com a sua voz vibrante e embargada, a sua crónica semanal que era uma verdadeira convocatória ao patriotismo, aos princípios revolucionários e ao mundo novo.

O Machado da Graça desse período quase pré-histórico não contemporizava com qualquer forma de ingerência nos assuntos internos da nossa terra. Os seus textos eram extremamente severos contra todas as tentativas do imperialismo e dos saudosistas do colonial-fascismo de darem lições ao nosso povo e ao novo Estado que estava então em alvorada. A sua severidade era extensiva aos agentes internos infiltrados nas nossas fileiras.

A maneira como se posicionou aquando da apresentação dos primeiros Partidos políticos é, a este respeito, paradigmática. Foi um dos que mais contribuiu para instilar na opinião pública a ideia de que esses Partidos eram o resultado de gente frustrada, ambiciosa e demente. As crónicas que escreveu sobre o Palmo (Um futuro originário, de Outubro de 1990 e Um Palmo no mau caminho, de 22 de Fevereiro de 1991), sobre a Unamo, sobre o COINMO e sobre o MONAMO (O gatinhar da democracia, de 14 de Maio de 1991 e Filme de terror, de 17 de Maio de 1991) podem ter contribuído imenso para a falência precoce dessas experiências políticas. Sobre Máximo Dias disse “...Mas onde os lapsos de Máximo Dias chegaram a um ponto mais inquietante foi quando afirmou, por duas vezes seguidas, que estava aqui, em Portugal. Lapso que atribuiu a uma estadia prolongada naquele país europeu mas que, devidamente analisado por um psicólogo, talvez revelasse um íntimo desejo oculto”. Se se tiver presente o contexto, e se nos recordarmos que Machado da Graça era uma voz sonante do jornalismo da época falando de uma elevada cátedra que era a Rádio Moçambique, entender-se-á que os seus posicionamentos determinaram, em grande parte, a percepção pública em relação ao novo fenómeno que era o multipartidarismo.

Tem sido pois com espanto e fascínio que tenho acompanhado o alinhamento actual deste prestigiado jornalista com fenómenos que outrora combateu com denodo. Num dos seus últimos escritos revolta-se contra jovens que cresceram a ouvi-lo e que hoje se posicionam contra as tentativas do chamado G-19 de humilhar o nosso país. Jovens que não concordam que um qualquer Todd Chapman esteja mais interessado em combater a miséria que afecta o nosso país do que os próprios moçambicanos. Jovens que se opõem a qualquer forma de relacionamento baseada em ultimatos do género “se o governo não melhora os indicadores de redução da pobreza até Março, cortamos a ajuda. Se o governo não altera a lei eleitoral até Março, cortamos a ajuda. Se o governo não melhora os indicadores de luta contra a corrupção até Março, cortamos a ajuda.” Machado da Graça designa de patrioteiros esses jovens que cresceram a ouvi-lo a ler proclamas patrióticas.

O digno jornalista parece acreditar que os africanos são incapazes de construir o roteiro do seu próprio desenvolvimento. Numa atitude salpicada de laivos de racismo ele aparece a postular que esses jovens moçambicanos preferem chafurdar na sujeira que lhes é típica do que “tomarem o banho que, de fora, lhes querem impor”. Será que acredita, este jornalista de referência, que os que nos querem dar o tal banho limparam as suas próprias porcarias em dois tempos? Acredita este decano do jornalismo moçambicano que esses países que hoje nos querem dar lições eliminaram a corrupção nos seus países e alcançaram os actuais níveis de boa governação em dois tempos?

Quanto tempo e quanto dinheiro esses países investiram no seu sistema de justiça? Moçambique teve o mesmo tempo e os mesmos recursos para formar juristas (que há 35 anos não existiam) e colocá-los em todos os seus distritos e postos administrativos? Quanto tempo e que recursos esses países despenderam para estabelecer as fundações do seu eficiente aparelho de estado? Não se dá conta o emérito jornalista que no dia que tivermos boa governação como a do G-19 já seremos tão desenvolvidos como eles? Não se dá conta que no dia que tivermos um aparelho de justiça tão rápido e eficiente como o do G-19 a investigar e a punir fraudes financeiras seremos já um país tão desenvolvido como eles. O que estamos a dizer é que as coisas que os actuais amigos de Machado da Graça querem que Moçambique resolva “até Março” eles levaram séculos a construir.

E não se trata de que nos indignemos “quando eles (a tal comunidade internacional) nos pedem contas sobre como esse dinheiro é gasto...” como se alega por aí. Somos favoráveis a que se façam auditorias regulares para se aferir se os procedimentos financeiros e de procurenment PREVIAMENTE acordados estão a ser cumpridos. Para aferir se os objectivos e indicadores de desenvolvimento PREVIAMENTE estabelecidos estão a ser cumpridos. Opomo-nos, isso sim, a que um qualquer encarregado de negócios sonhe com um vago e confuso princípio de inclusão e, no dia seguinte, queira impô-lo, na forma de chantagem, ao nosso Governo. Opomo-nos a que cada diplomata estabeleça a sua própria definição de boa governação, as suas percepções sobre a corrupção no país, o seu conceito unilateral de democracia e, na base dessas conclusões subjectivas, se queira humilhar todo um país. Na verdade, os critérios de avaliação da eficácia da cooperação DEVEM ser acordados previamente por ambas as partes. Não devem resultar de improvisações, sonhos ou alucinações duma das partes.

Deixem o nosso país seguir o seu próprio caminho para o progresso. O Governo que está a ser chantageado no fim do seu mandato aprofundou a visão deste país para o desenvolvimento. Uma das vias é a que causa úlceras gástricas ao G-19 e ao ilustre jornalista: os 7 milhões. O jornalista outrora admirado por meu pai diz num dos seus últimos textos que os G-19 estão “preocupados por o seu dinheiro estar a servir para reforçar a presença da Frelimo nos distritos, através dos chamados 7 milhões... ” Este grande jornalista ignora o facto de que esta iniciativa deu a todos os nossos distritos recursos para financiarem a produção de mais comida, gerarem mais postos de trabalho e criou a facilidade para que indivíduos de extractos sociais humildes, que de outro modo não teriam como financiar as suas iniciativas económicas, tivessem a possibilidade de serem actores reais na vida económica do país. Mais do que ultimatos, as bases para a boa governação e para a redução substancial da pobreza provirão da multiplicação de iniciativas como esta.

Porque é que Machado da Graça e outros como ele passaram de inimigos da tutelagem estrangeira a amigos de banhos dados aos africanos por potências estrangeiras? Esta é uma questão de difícil resposta. Uma das chaves de resposta é-nos dada pelo próprio quando sugere que eu e outros que nos posicionamos contra a tutelagem externa fazemo-lo para “mostrar serviço para que as manjedouras continuem cheias com os saborosos restos do banquete dos poderosos”. Podemos presumir desta clave que nos é dada pelo prestigiado jornalista, que nos tempos em que se assumia como arauto da moçambicanidade as manjedouras andavam cheias “com saborosos restos do banquete dos poderosos”. Deixaram de estar cheias ou ele e outros seus semelhantes passaram a querer mais? Confesso que não sei. Ele e os seus amigos poderiam elucidar-nos. Uma outra explicação para a mudança pode radicar na probabilidade de Machado da Graça e seus iguais terem percebido que o estar contra compensa. Ele e os seus iguais podem ter percebido que, como grupo com características específicas em termos de trajectória política e social, poderiam ter melhores manjedouras se virassem as casacas. Só que ficaram muito amargos e rancorosos.

Os tempos, porém, mudaram. Muitos de nós que hoje nos posicionamos no debate público estamos na academia, estamos na consultoria, estamos nas organizações internacionais, estamos na magistratura. As regras da nossa progressão estão claramente estatuídas. Podemos prever com clareza o que precisamos de fazer para chegarmos a catedráticos ou a juízes de primeira. Não há como nos frustrarmos e ficarmos amargos. E, sobretudo, vivemos do nosso esforço e não de oportunismos de circunstância determinados por manjedouras como a do G-19, para as quais o referido jornalista está agora com os olhos virados.

Adenda: "Os Nossos Compatriotas Zangados" foi o título de uma série que, Elísio Macamo fez publicar no Jornal "Notícias" em tempos que, pelo seu interesse para o debate que temos tido aqui, Gonçalves Matsinhe publica no seu blog AQUI, depois que o primeiro número dessa série foi publicado também AQUI.

Adenda 2: O José põe "Machado da Graça Na Berlinda" aqui.

Adenda 3: Matsinhe postou o nº 2 da saga dos nossos compatriotas zangados aqui

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Errand Boys - Cooperação Sim, Chantagem Não!!

Mesmo a fechar o ano, brindo vos com esta reflexão do meu amigo Phiri (obrigado por me enviar por email). Espero que 2010 seja melhor que todos os anos que passaram, que a esfera pública progrida no debate de ideias. Que, aqui neste espaço cibernético que cresce todos os dias, aquilatemos as nossas capacidades influenciando o que deve ser a agenda nacional a partir daqui de Moçambique sem andarmos a reboque do que os nossos "parceiros" dizem que deve ser a nossa agenda (sem insultos).

Errand Boys

Por: Tadeu Phiri

Têm sido veiculadas, por uma certa imprensa, notícias que referem que os doadores (G-19), também designados parceiros, estão a chantagear ao Governo, condicionando a sua “ajuda” à satisfação das suas exigências. A notícia é veiculada com o maior dos regozijos e a maior das satisfações dos seus autores! Isto é, está explícita a felicidade dos nossos compatriotas que veicularam tais informações, como quem diz: “que bom que o Governo está a ser chantageado pelo G-19”. Estamos muito atentos a estes moçoilos, mocinhos e moços de recados dos “doadores”.

É tanta a felicidade dos Errand Boys que até descrevem com minúcia os termos em que a chantagem será feita! “Se não se fizer isto deste modo e aquilo daqueloutro modo, a ajuda será cortada”! Mete pena ver moçambicanos a regozijarem-se pelo facto de os seus patrões estarem a chantagear o Governo do país que também é deles. Há não muito tempo recusaram-se terminantemente que estavam ao serviço de interesses estrangeiros. O que é que estão a fazer quando aceitam ser usados como moços de recados? A que interesses servem quando nos brindam e se regozijam com notícias que dão conta de que os seus patrões vão chantagear o governo?

Há nestes recados uma questão ética que pode ser levantada. Se é de diálogo que estamos a falar, e se esse diálogo está a ser feito com o Governo de um Estado soberano, porque esse diálogo tem que vir através dos Errand Boys? Os nossos amigos, os tais parceiros, esqueceram-se do endereço do Ministério dos Negócios Estrangeiros ou do Ministério de Planificação e Desenvolvimento? Como se espera que o Governo de um país deva reagir perante condições humilhantes a si colocadas através da imprensa?

Esta gafe ética pode não ser de todo inocente. Ela pretende transmitir aos moçambicanos de que os tais parceiros têm mais desvelo pelo bem estar do país do que o Governo do país. Pretendem transmitir a ideia de que os parceiros ocidentais amam mais Moçambique do que os moçambicanos. O que é obviamente falso, sendo esta realidade conhecida pelos tais parceiros e os seus moços de recado. Por este andar, não falta muito que os nossos moços de recados nos venham dizer que quando os seus patrões colonizaram África fizeram-no porque amavam África mais do que os próprios africanos. Façam-nos um favor amigos: poupem-nos desses vossos ataques histéricos de anti-patriotismo.

Podemos imaginar o resto da chantagem que os tais parceiros trazem. Dir-nos-ão que o nosso desempenho na luta contra a pobreza é fraco. E que se não melhorarmos até Março nos cortam a ajuda. Este absurdo ultimato parte do pressuposto de que estes nossos amigos estão mais preocupados com a nossa pobreza do que nós. Que tudo o que nós estamos a fazer para melhorar a nossa vida, tanto no campo como na cidade, fazemo-lo porque os doadores exigem. Que monstruosa presunção!

Virão dizer-nos que a nossa lei eleitoral não é satisfatória e que se ela não melhorar até Março nos cortam a ajuda. Esta grosseira condição ignora o esforço que as forças políticas deste país vêm fazendo desde o alcance da paz. A Conferência Multipartidária dos princípios da década 90 tinha como um dos seus objectives encontrar procedimentos eleitorais consensuais. Estes consensos continuaram a ser construídos na primeira, segunda e terceira legislaturas multipartidárias quando as forças políticas no parlamento procuraram incessantemente, aperfeiçoar a sua lei eleitoral, tomando também em conta as recomendações do Tribunal Supremo, do Conselho Constitucional, dos órgãos eleitorais, dos observadores nacionais, da academia e dos observadores externos. Essa busca incessante do consenso não foi determinada por chantagens de doadores nem por recados dos seus Errand Boys acoitados em alguns sectores do jornalismo moçambicano. Este país continuará a aperfeiçoar a sua lei eleitoral independentemente de chantagens e de recadinhos.

Não precisamos que “doadores” nos venham dizer o que carece de melhorias. Somos lúcidos o suficiente para percebermos o que está mal e carece de melhorias.

A “ajuda” não os dá o direito de nos chantagearem. Já podemos imaginar a pressão que será feita ao Governo que será formado no ano de 2010. Vão querer impô-lo agendas e, caso tais agendas sejam recusadas, a chantagem será a de que a “ajuda” será cortada. Vão se esquecer estes nossos amigos que houve um manifesto eleitoral que foi votado por mais de 70% dos votantes. Para eles o que interessa são as suas agendas e não a agenda dos moçambicanos.

Mas que fiquem claros sobre uma coisa: se não querem cooperar connosco, que não cooperem! Os moçambicanos não são servos dos doadores. Parem de nos ameaçar. E digam aos vossos moços de recados para pararem de nos transmitirem os vossos recados. Se querem cooperação, que seja por bem. Que fique bem claro que tudo que for melhorado no próximo quinquénio sê-lo-á por mérito dos moçambicanos. Não precisamos que venham pessoas de fora para nos lembrar que temos que resolver os nossos problemas. Nem precisamos que nos mendem recados através dos seus Errand Boys.

Cooperação sim, chantagem não.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Que Jornalismo Temos em Moçambique? (2) Que Leitores Somos?

Retomo este tema sempre fascinante sobre o jornalismo moçambicano numa outra perspectiva: que leitores somos? Esta nova abordagem foi me induzida pelo comentário de Elísio Macamo (aniversariante na próxima semana) ao meu post anterior sobre o assunto, que reproduzo abaixo.

Que leitores somos camaradas?

Ola a todos,

Acho que os problemas apresentados pelo nosso jornalismo não são unicos. nestas bandas tambem ha jornalismo que só arrepia, incluindo imprensa dita de qualidade.

Uma coisa que me parece susceptivel de disciplinar melhor os jornalistas é a qualidade de leitura. Os leitores têm que ser mais criticos, mas aqui é onde reside o nosso principal problema como, aliás, podemos ver em muitas discussões mesmo nos blogues onde continuam a verificar-se casos de gente que não lê atentamente o que os outros escrevem, mas sente-se habilitada a fazer comentários profundos.

No meu defunto blogue investi algum tempo e esforço a atacar esse problema, mas em muitos casos foi em vão. Portanto, Júlio, esqueça os jornalistas. concentra-te nos leitores!

Aproveito desejar boas festas a todos!

e. macamo

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

A Propósito dos 61 Anos de Miragem

A propósito de Direitos Humanos: 61 Anos de Miragem, um post publicado no Blog do meu amigo Custódio Duma, e trazido a debate via email pelo desaparecido Salema (o Ericino), o Milton Machel colocou algumas questões que julgo importante ampliá-las por esta via para benefício dos que não receberam o Email. Reproduzo igualmente a resposta do Ericino ao Milton.

Basílio e Salema, meus caros. Algumas inquietações de ocasião:

O que significa, de facto, quando proclamamos A Luta Continua? (vamos continuar a fazer as mesmas coisas, a lutar do mesmo jeito?)

O que é isso de Geração da Viragem que somos agora (que viragem pretendemos induzir e conduzir)?

Que Utopia nos impele e compele a Lutar por Moçambique (para Moçambique ser o que)?

Por que Direitos afinal estamos a lutar? Em que etapa da Luta pelos Direitos Humanos estamos? Como estamos a lutar?

Qual o sentido de autocrítica nessa Nossa Luta pelos Direitos Humanos?

Ate que ponto somos, os mais esclarecidos, os mais privilegiados, os mais mediáticos, agentes dessa Causa em cada acto público nosso?

Andamos a pregar, palestrar, debater os Direitos Humanos, mas que pedagogia dos Direitos Humanos realmente praticamos?

Será mesmo o mais importante que A Luta Continua, qual praxis...ou como continuar a Luta?

Se me conseguirem responder ao meu Estado de Inquietude patente neste questionário, ser-me-ão de grande ajuda... há um pensamento em mim que se quer organizar sob a orientação desse puzzle de questões, mas não encontro a bússola manos, ajudem-me a acha-la!!!

Bem, retorno a minha reclusão sabática na companhia do Obama (A Minha Herança) e do Amin Maalouf (As Identidades Assassinas)...prontos, the struggle must continue...but what struggle, and How?

Aquele abraço, MM

Caro Milton,

Em prefácio à primeira edição do “Compêndio de Documentos-Chave dos Direitos”, Julia Dolly Joiner, comissária para os assuntos políticos da União Africana, refere que os Direitos Humanos, a segurança humana e o desenvolvimento humano são interdependentes, indivisíveis e inter-relacionados, constituindo, assim, elementos inseparáveis na demanda de África pela prosperidade.


O continente em que o nosso país se situa continua, hoje por hoje, a enfrentar sérios desafios no que diz respeito aos Direitos Humanos. O genocídio de 1994 no Ruanda, diz Julia Joiner, é a mais vívida recordação da necessidade urgente de reforçar a nossa determinação e os mecanismos para a concretização dos Direitos Humanos para todos em toda África.


Por cá, é por demais óbvio que há muita luta por ser levada a cabo, para que os Direitos Humanos sejam sinónimos de segurança humana e de desenvolvimento humano. Sem, nisso tudo, nos esquecermos do facto de o Estado ser o único sujeito activo do crime de direitos humanos.


Quando se diz a luta continua, não se pretende, penso, significar que, no campo da comunicação social, por exemplo, continuaremos a dar o nosso contributo sem investigação; que, no campo do acesso à justiça, continuaremos a ‘conviver’ com inúmeras almas impedidas de aceder à justiça, devido às elevadas custas judiciais; que, no domínio da efectivação do direito à habitação, continuaremos a achar ‘normalíssimos’ o convívio com juros proibitivos. Continuar a luta é alterar o status quo, onde tal se mostra necessário. Sempre, mas sempre mesmo, com a necessária sofisticação e determinação.


No campo dos media, em particular, conforme explicava há meses em entrevista ao “Bantulância”, de Josué Bila, a luta no domínio dos Direitos Humanos não pode ser somente feita com um ‘jornalismo pão e manteiga’…


Outra vez, mano Milton, “A Luta Continua!”, como canta a saudosa Miriam Makeba. Venceremos? O mundo da utopia pode nos proporcionar óptimas respostas a esta indagação…que nada tem de helénico!


Pergunto: o caminho está claro?

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Que Jornalismo Temos em Moçambique?

Por causa da leitura deste blog sugerido por um amigo por email, cá estou eu de volta a um tema que me fascina: jornalismo.

Compatriotas, que jornalismo temos em Moçambique?

No blog que sugiro tem os seguintes statements:

  • O mau jornalismo não presta serviço à sociedade.
  • O mau jornalismo não procura a verdade.
  • O mau jornalismo é pago para propagandear.
  • O mau jornalismo é feito para fazer lavagens cerebrais.
  • O mau jornalismo não procura o onde, quando nem o porquê.
  • O mau jornalismo NÃO APAGA a memória nem branqueia crimes.
  • O mau jornalismo é um fait-diver.
Que relação existe entre o listado acima com o jornalismo feito em Moçambique? Reconhecemos algo do nosso jornalismo nesses ou em algum desses dizeres?

Um abraço.

(espero que a Zenaida, o Mapengo, o Milton, O BULDOZER - sabem de quem falo hehehe - e outros grandes jornalistas e comunicadores passem por cá... e que não me trucidem)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Chapas, um Problema Sério

O Professor Carlos Serra publica aqui uma reflexão interessante sobre um problema (real diga-se) por ele constatado ao ver “umchapa 25 lugares. Estado miserável, todo cheio de mazelas, um horror fumegante, pneus carecas, o pneu traseiro esquerdo em baixo, completamente lotado de estudantes e funcionários.”

Se calhar muitos de nós cruzamos com dezenas de chapas nesse estado. Invariavelmente lotados e sempre “dispostos” a levar mais alguém. Se calhar é neles que nos fazemos transportar de e para casa. Se calhar 60% dos chapas que circulam na cidade de Maputo estejam no estado descrito pelo professor mas, infelizmente, é neles que muita gente se faz transportar.

Porque será?

Diz o professor que “o problema não está no ilícito culposo materializado no carro e nos polícias que o deixam circular, o problema não está na dominação dos pequenos caciques que querem enriquecer rapidamente e sem escrúpulos, o problema real está em nós aceitarmos a dominação, em a termos na alma. É esta impotência que me molesta, é este o real problema.”

De facto, todos reconhecemos que o estado mecânico de maior parte dos chapas que circulam não é o melhor. E não é só a aparência que assim o dita: o coxear dessas viaturas, os gases espelidos, etc mostram que estão BAD.

Mas mesmo assim continuamos a apanhar esses carros. Porque será?

Infelizmente a cidade de Maputo, com o deficit no serviço público de transporte urbano, apesar do esforço dos TPM e da entidade de tutela, faz de nós reféns dos chapas. Mais do que “vivermos chapas” como diz o professor numa das adendas ao post, está a necessidade de sobreviver, pondo comida na mesa, que muitas vezes depende única e exclusivamente de apanharmos chapas se quisermos manter a fonte que nos garante o pouco para esse efeito. Para chegarmos a faculdade muitas vezes dependemos desses chapas podres, de onde (sem olhar pela janela) podemos contar os buracos da estrada. Muitas vezes ter um mini bus de 25 lugares é um luxo. Há quem se faz transportar em camiões, carrinhas simples etc.

Há soluções a vista? Que podemos fazer?

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Governo, Economia & Banca (Actualizado)


Recebi a imagem que reproduzo abaixo e dei comigo a conjecturar sobre a interacção Governo, cidadãos e os diversos sectores económicos na sustentabilidade da (frágil) economia Moçambicana.

Será que a figura abaixo poderia caracterizar as (co)relações em Moçambique?
Basílio, dê luz.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Analisar O Todo Pela Parte

Há quem acredita cegamente que a parte é o todo. Facto, é que a parte pode ser forte às vezes, mas nunca em ocasião alguma se pode substituir ao todo. Isto porque o todo é fruto de múltiplas partes, daí que, não podemos extrair uma parte do conjunto a que faz parte e temo-lo como poderosa e logo, capaz de superar o todo.

Mas deixemos de filosofias para o concreto: o nascimento do MDM trouxe, em Alguns, um sentimento de que o MDM, e seu candidato superariam tudo e todos. Houve muitos, que passaram a olhar o “todo” (pais), a partir da “parte” [Beira/Sofala(?)].

Olharam para a popularidade do MDM e seu candidato a partir de Sofala e logo, deduziram, que em Moçambique inteiro, o MDM tinha inserção.

Foram e são estes, que ante a exclusão e por motivos tão óbvios como os de incapacidade para montar uma máquina partidária plena em todo o pais, não quiseram aceitar, desdobrando-se em desculpas da inclusão e da CNE servir os objectivos do partido no poder.

Mas, maior dança, assistiu-se aqui na blogosfera, onde o MDM e seu candidato, foram tão agigantados, tão agigantados, que mesmo os que tem a capacidade de pensar este pais, fora dos escritórios com temperatura à medida, começaram a acreditar que o MDM (parte) se podia substituir ao todo.

Sentimos até arrogância por parte de alguns blogers, que tendo vivido na ânsia de receber a luz, receberam-na em quantidade superior, o que, provocou cegueira, ao ponto de não conseguirem enxergar a verdade.

E fugia-lhes a verdade do trabalho visível que o candidato Armando Guebuza fez durante o seu mandato; fugia-lhes a verdade do facto deste ter palmilhado o Distrito e empoderar-lhe; deste, ter mantido contacto directo com o seu povo, num pais, em que o Presidente se conhecia dos retratos disponíveis nas instituições.

Fugia-lhes acima de tudo a obra que foi a governação do candidato Guebuza que, bastou que o candidato do MDM anunciasse a sua candidatura, e com algum peso de história que este carrega, e dos feitos (que precisam ser reanalisados na governação) deste no Município da Beira.

Sim, reanalisados, porque o mesmo contentamento que o povo da Beira teve no mandato anterior do Deviz (início), parece-me que foi sol de pouca dura (mas esta é matéria de um próximo post).

Assistimos a blogers arrogantes, como se investidos já de poder (no fundo denunciavam a sua postura se tomassem o poder), onde o outro (da FRELIMO entenda-se), era tratado com todo o desprezo, com todos opróbrios que o dicionário já conheceu; tratado, como não pensante.

E pensavam somente os pro MDM e seu candidato.

Alguém dirá que estávamos em guerra e que todo o pensamento para derrubar o adversário valia, mas que se diga, um pouco de bom senso se recomendava, porque vir com discursos de gerações que nunca existiram (28 de Outubro), senão na cabeça de quem os anunciava, pensar que não se podia parar o vento (Mbepo) com as mãos, quando nunca houvera ventania senão nas cabeças de quem a anunciava, acreditar em sondagens e inquéritos que eram feitos pelos próprios e com direito a votos plúrimos, não pode justificar a guerra movida. Aquele pensamento, justificava a arrogância que tomou conta de todos desde o candidato do MDM, alguns membros, jornalistas que liam os blogues e acreditavam que aqueles reflectiam o Moçambique.

Até, chegaram estes, a vaticinar uma Segunda volta (?) entre o candidato da FRELIMO e o do MDM.

Ora, senhores, uma possível segunda volta seria e por mera hipótese académica com o líder da RENAMO, que os seus apoiantes nunca vieram a blogosfera e não assistem televisão (eleitorado rural).

Queria, e mesmo a finalizar este texto atípico, dizer que me reconcilio com o todos os meus irmãos blogers que me insultaram de todas as formas (porque acredito que o faziam pensando no bem estar de Moçambique) e lanço um convite, para que não desapareçam como o fazem agora, que voltem ao convívio da blogosfera, para que recomece o debate, que deve ser permanente.

Anuncio que continuo aqui; não fui a lugar nenhum já que não corria para lado nenhum. Continuarão me encontrando sempre onde me encontravam já que não sairei daqui de onde sempre observei o meu pais.Um abraço a todos e não a partes.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Do Vídeo da Fraude _ Uma Brincadeira de Muito Mau Gosto que Não Devia Ficar Por Ai

Circula um vídeo que, supostamente, "prova" fraude cometida por elementos de uma mesa de votação. Não me quero alongar no assunto por que está a ser, por demais, escalpelizado aqui. Chamo apenas a atenção às perguntas que o meu amigo Amosse Macamo deixou num comentário lá.

Sobre o vídeo, acrescento algumas (e que sei que vão nortear o julgador) caso o video seja presente às instâncias competentes:

Primeiro: quem é o dono do celular?

Segundo: quem as tirou é votante naquela mesa? Se sim, já tinha votado? Ou é de uma outra mesa. (isto é relevante porque a lei, fora os observadores, não pemite a permanência de quem já tenha votado no lugar da votação, isto por um lado, e se já tinha votado numa outra mesa, o que estaria a fazer naquela? A não ser que a pessoa que captou fosse obserador, porque caso não, questionariamos: como sabia que de entre váios postos de votação, justamente naquele haveria a inutilização dos votos?

Terceiro: de que ponto e ângulo captou as imagens?

Quarta: saber se quem gravou, milita em algum partido e qual? E mais se desempenha no mesmo partido, algum cargo.

Quinto: a que horas foi feita a filmagem(isto se levarmos em conta que a votação só termina as 18 horas e a abertura das urnas só pode ser feita depois destas horas e isto, claro dependendo do fluxo dos votantes)? É, pois sim, importante saber a hora que medeia entre o fecho da mesa, e o da filmagem (muito importante). Reparem, estas perguntas são as preliminares, seguir-se ia depois e como diligência, a peritagem por especialistas, para confirmar se a mesma filmagem foi feita no dia, hora e espaço a que se alude.

Uma coisa importante nisto, é que a nossa legislação penal, diz que o ônus de prova é de quem acusa, no sentido de que, este deve apresentar as provas que julga suportarem a sua acusação, pelo que, exige-se a idoneidade e credibilidade das provas que são presentes, pois, o julgador se as considerar inidóneas, pode até não as receber.

No que se refere a este vídeo, não gostaria de colocar as coisas na questão da aceitabilidade ou não,mas sim, na propensão da manipulação das imagens e da verdade dos factos.

Hoje, as novas tecnologias, colocam um desafio ao direito, na questão da prova, isto porque, com as tecnologias de ponta, um indivíduo pode estar num sítio que nunca esteve,pode inclusive cantar quando nunca cantou, pode dizer palavras que nunca as pronunciou, pode quase tudo que a teconolgia permite e ai está, como dar cobro a estas situações.