segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Os iiiiiii de Machado da Graça

Este debate iniciado com a publicação deste texto de Tadeu Phiri, que mereceu esta resposta de Machado da Graça, prosseguindo com a reacção de Tadeu aqui e uma nova reacção de Machado da Graça aqui teve um novo desenvolvimento com a publicação pelo semanário Domingo de mais um artigo de Phiri que transcrevo abaixo.

Os iiiiiii de Machado da Graça

Tadeu Phiri

Na sua última talhe de foice Machado da (des)Graça não me surpreendeu. Voltou a dar machadadas nas suas próprias costas. Se Machado (o da Graça) vive há trinta e cinco anos com a obsessão de pertencer a uma alegada esquerda (para a qual só são associados alguns eleitos com os quais leu os mesmos livros, viu os mesmos filmes e debateu nos mesmos cine-clubes), não podemos censurá-lo por nos presentear, de tempos em tempos, com discursos sublimes que ele acredita piamente serem discursos de esquerda. Da sua esquerda.

Bom, deixemos de detalhes e partamos para o essencial. O primeiro ponto essencial refere-se à minha existência. Porque (pensa que) nunca me viu ele toma-me por inexistente! Para Machado da Graça, só existe quem ele conhece. Tenta imitar a dúvida metódica ou cartesiana, de forma errada, como quem diz: “não conheço Tadeu Phiri, logo ele não existe”. Será isto um resquício dos tempos em que muitos moçambicanos eram considerados nada? Prefiro não acreditar.

De 1975 a esta parte o país viu nascerem 40 instituições de ensino superior. Mais de 40.000 jovens ingressam todos os anos ao ensino superior. Milhares de Phiris são formados todos os anos, sem contar com outros milhares de graduados no ensino médio. É evidente que Machado da Graça não conhece a todos eles. Será que, porque os não conhece, eles não existem?

O tempo em que todos os que escreviam bem se conheciam passou para a história. Machado da Graça não me conhece mas eu lhe conheço. Eu penso, logo, existo – cogito ergo sum. Isto para dizer que não faz o mínimo de sentido que o senhor Machado da Graça diga que eu, Tadeu Phiri, filho de Tiago Phiri e de Fátima Thembo, não existo!

O segundo ponto essencial refere-se à adaptação da FRELIMO ao contexto global. No seu último texto, Machado da Graça demonstra que a FRELIMO sempre procurou ajustar a sua linha de orientação às circunstâncias concretas do terreno, tanto dentro como fora do país. A tal FRELIMO ortodoxa de 1977, que preconizava o absoluto controlo da economia foi sofrendo ajustamentos a partir dos princípios da década de 80. A privatização das pequenas empresas, as negociações com o Fundo Monetário Internacional e a abertura ao Ocidente fazem parte destes ajustamentos à realidade concreta. Queria Machado da Graça que a FRELIMO ficasse parada no tempo? Já no tempo de Samora a FRELIMO havia se mostrado aberta às instituições de Bretton Woods e ao Ocidente! Esta FRELIMO de hoje é a FRELIMO de Samora Machel sim. Portanto, se está divorciado desta FRELIMO, caro Machado da Graça, então está divorciado da FRELIMO de Samora Machel.

Sobre as mudanças e adequações ao contexto, aconselho Machado da Graça a ler o livro de Sylvia Bragança, para ficar elucidado com o que esta Senhora refere na sua obra. Quem sabe possa aprender um pouco mais acerca das vantagens que a mutabilidade e a adaptabilidade trazem para o progresso dos povos.

O terceiro ponto essencial refere-se ao isolamento de Machado da Graça. Este excelentíssimo senhor recusa-se a aceitar que está isolado e numa posição contrária a tudo aquilo que é normal e bom. Para lhe elucidar sobre este ponto bastam duas breves referências históricas: a primeira tem que ver com o pronunciamento de Machado da Graça aquando das últimas eleições autárquicas. Declarou-se contra a candidatura de David Simango para Presidente do Município de Maputo portou-se como quem aconselhava aos eleitores a não votarem no candidato. Os eleitores votaram em massa em David Simango, contrariando o desejo de Machado da Graça. A segunda tem que ver com o pronunciamento de Machado da Graça aquando das últimas eleições presidenciais. Declarou que não votaria na FRELIMO e no seu candidato. O Povo eleitor e patriota votou em massa na FRELIMO e no seu candidato ao ponto de lhes garantir mais de 70% dos votos. Como facilmente se depreende, Machado da Graça está isolado e auto-abandonado.



A minha inquietação: porque razão Machado da Graça insiste que Tadeu não é Tadeu? Será tão importante para ele que Tadeu fosse a pessoa que ele supõe ser quem escreve e assina Tadeu? Porque Tadeu não pode ser Tadeu? Porque Tadeu é conotado com o Augusto? Porque razão é muito importante quem Tadeu é em detrimento das suas ideias?

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

O que Significa o Debate Sobre a Sucessão de Armando Guebuza Neste Momento?

É o tema do momento. Em muitas plataformas de debate a pergunta é recorrente: “quem será o candidato às presidenciais de 2014?” pergunta feita, praticamente, um mês após o início do mandato do governo saído das últimas eleições ganhas, precisamente, por AEG e pela Frelimo.

Não deixo de reconhecer legitimidade dos que questionam e problematizam os cenários vindouros como é o caso do meu amigo Egídio Vaz que até perde sono com alguns cenários possíveis, porém, não deixo de me questionar e buscar o significado deste debate a esta altura por duas razões.

(i) Me parece que, mais do que questionar quem, eventualmente, sucederá AEG, há um posicionamento claro contra uma possível emenda constitucional que permita a manutenção deste no cargo por um ou mais mandatos suplementares. A “bem da democracia interna” no partido libertador e da “sucessão” governativa pretende-se e reza-se para que AEG siga o exemplo de Chissano e, mesmo podendo “mexer” com a Constituição, não o faça e vá descansar. Nestes parece implícita a ideia de que mexer com a constituição é antidemocrático como se só essa medida garantisse, em eleições, a continuidade de AEG.

(ii) Me parece que outros o fazem pela curiosidade de saber quem será o próximo PR. Se o texto do Egídio (o tal dos cenários que o tiram sono) parece comedido a ponto de deixar certas questões apenas no interior da FRELIMo quando afirma que “estando Armando Guebuza de saída da liderança do país, a segunda parte da sua Governação poderá se caracterizar pela reorientação de políticas e prioridades, para atender tanto os interesses e agenda política do futuro candidato e da nova liderança do Partido” (sublinhado meu) outros há e de todos os quadrantes, que vêm nesse, o próximo presidente de Moçambique.

Esta visão não é de todo descabida se considerarmos o desintegrar da Renamo e o longo caminho que outra oposição política (porque existe a outra) nacional tem para se afirmar e constituir-se como alternativa válida ao poder de “um partido cada vez mais forte e avassalador” emprestando de novo as palavras do E. Vaz.

Mas ilustres,(i) faltando meses de distância do X Congresso do Partido, (ii) faltando escassos dias para conhecermos a agenda da AR bem como, eventualmente, as matérias que podem ser mexidas na Constituição que, já se disse, vai ser mexida o que significa neste momento discutir a sucessão do Guebas? O que se espera dessa discussão?

Não estaremos a secundarizar o modelo de gestão dos pleitos eleitorais e as recomendações do CC sobre a matéria? É que estas terão reflexos na eleição de qualquer candidato seja ele Guebas ou Simango. Não estamos a perder o tempo que devíamos usar a pensar num modelo eleitoral mais próximo da nossa realidade discutindo um possível candidato que terá que passar pelo crivo popular de acordo com algum sistema eleitoral?

domingo, 24 de janeiro de 2010

Os Truques Retóricos de Uma Reacção de Machado da Graça

Conforme referi no post anterior, Tadeu Phiri já reagiu através de um artigo de opinião publicado no jornal Domingo de ontem dia 24 de Janeiro de 2010, ao texto de Machado da Graça publicado na página 6 da edição do Savana do dia 15 de Janeiro de 2010. Devidamente autorizado por Phiri, abaixo vai o texto (recorde este texto e este se quiser ver o filme de início)

Os Truques Retóricos de Uma Reacção de Machado da Graça

Tadeu Phiri

Li a reacção de Machado da Graça ao meu texto, que o jornal Domingo aceitou publicar há uns dias atrás. Achei-a engraçada e é por isso que venho com esta resposta apressada pois encontro-me fora de Maputo. Na sua reacção, Machado da Graça demonstra à saciedade que é retoricamente excelente. Tentou afastar os leitores do essencial da discussão com claras manobras de diversão. Primeiro insistiu muito na questão do anonimato. Lembra uma afirmação que, segundo o meu pai, Machado da Graça teria feito num passado recente. Segundo o meu pai, num debate que estava a ocorrer nos jornais nesse momento, este jornalista teria acusado o seu oponente de estar a socorrer-se do anonimato, pois “todas as pessoas que escrevem bem se conhecem neste país”. Isto mostra que Machado da Graça não acompanhou o esforço que este país despendeu na educação desde 1975. Muitas pessoas que no período colonial teriam morrido analfabetas, hoje têm esta faculdade de escrever bastante bem. E é uma pena que esta pessoa que sempre me pareceu inteligente, não tenha apreendido isso.

Creio que ele pensa que o autor do texto que escrevi é o Augusto de Carvalho, do semanário Domingo, o que é um elogio muito grande para mim. É um elogio porque considero este jurista/jornalista uma das pessoas que melhor escreve no país. Mas este país tem muitos moçambicanos que escrevem muito bem, muitos dos quais educados essencialmente depois da independência. É só visitar uma mancheia de blogs escritos por jovens moçambicanos para se deliciar e se impressionar com o poder de síntese e de argumentação que muitos deles desenvolveram (Elísio Macamo, Júlio Muthisse, Egídio Vaz, Amosse Macamo, Alberto Nkutumula, Bayano Vali, Ilídio Macia, Obed L. Khan, Viriato Tembe, Gonçalves Matsinhe, Nuno Amorim...). Não conheço pessoalmente a maioria destes bloguistas, mas posso garantir a Machado da Graça que estes moçambicanos escrevem tão bem ou melhor que Tadeu Phiri. E nada me autoriza a duvidar da autenticidade da sua identificação e daí saltar para a suspeita de que sejam filhos de Machado da Graça, Augusto de Carvalho, Fernando Lima, Orlando Mendes, Leite de Vasconcelos ou outros antigos gurus da escrita. Não faço isso porque eu próprio sou uma prova de que este país mudou muito nos últimos 35 anos.

Um dos truques retóricos de Machado da Graça consistiu em tentar vender a ideia de que o meu argumento baseia-se no ponto de que ele mudou enquanto que o país não mudou. A partir desta falácia torna-se fácil argumentar, como ele o faz, que muita coisa mudou no pais e que é isso que ele critica. É evidente que não pretendo deixar em branco esta artimanha argumentativa. O que eu criticava no meu texto era a posição de Machado da Graça em relação ao país. Dantes ele colocava o país acima de todos os interesses de fora. Hoje acha que o exterior pode ter boas intenções. Ora, uma vez que ele no passado era contra o capitalismo (e por isso criticava o exterior capitalista) porque acha ele que esses mesmos países capitalistas vão salvar o país contra os corruptos internos? Porque não convoca uma revolução interna e aconselha o rumo cubano? A incoerência do emérito cronista está aqui. Será que Machado da Graça está a dizer que já que a FRELIMO, cuja politica ele defendia, mudou o país agora pode ser entregue de bandeja aos capitalistas externos?

Mesmo sobre a mudança da FRELIMO que parece magoa-lo tanto haveria muito para dizer. Este Partido mudou, isto é verdade! Moçambique mudou, também é verdade! Africa mudou, ninguém o pode desmentir (antes, este continente era dominado por Partidos únicos, com o argumento de que isso servia melhor a unidade dos novos Estados). A Europa mudou! A Juguslávia mudou! O muro de Berlim caiu! O Capitalismo tem estado a sofrer ou a beneficiar de várias mudanças! A China mudou! Ora, como é que perante estas mudanças todas a única entidade que não mudou é Machado da Graça? Será que todos estão errados e, ele sozinho, está coberto de razão? O que torna as suas certezas tão inabaláveis? Eu, no lugar deste insigne jornalista, começaria agora mesmo a interrogar as minhas certezas.

Mas, na verdade, não é só a FRELIMO que mudou. O próprio Machado da Graça mudou. Contrariando as suas próprias crenças leninistas, ele confessa que é proprietário de uma empresa. Tenta minimizar este facto informando-nos de que a tal empresa está em permanente crise. Talvés este pequeno truque sirva para não o associarmos com a corrupção que a chamada esquerda, de que ele parece fazer parte, associa sempre aos africanos que ousem ser empresários. É só prestar atenção ao tom com que nos informa que “Armando Emílio Guebuza é um dos mais importantes empresários deste país.” Para depois acrescentar que este facto indica uma atitude de vida diametralmente oposta à de Samora Machel, o único Presidente com que parece se identificar. É caso para perguntar: para não se ser diametralmente oposto a Samora é imprescindível ter apenas uma empresa “em permanente crise”? A partir de que número de empresas, ou a partir de que nível de prosperidade já se estaria em contradiçao com Samora? Temos que assumir que Machado da Graça é o padrão da honestidade samoriana?

Há um segundo truque retórico que ele usa para contrariar o meu texto. Como eu disse que o sistema de justiça ocidental tinha levado tempo para ser instalado, Machado da Graça acha que pela mesma razão devíamos recusar usar automóveis, aviões, etc. Tenho ouvido muito este argumento mas devo dizer, infelizmente, que ele é falacioso, pois sugere uma comparação inexistente. Quando alguém diz que levou tempo para se instalar um sistema politico funcional não está a dizer que não quer trabalhar no sentido de instalar esse sistema, nem está a dizer que quer totalmente prescindir dele. A analogia serve, no caso dos aviões e telemóveis, simplesmente para dizer que as condições em que essas coisas vão funcionar no nosso seio vão ser diferentes e, por isso, vai levar tempo até a gente ser capaz de as utilizar da mesma maneira. A Mcel tem graves problemas; as nossas estradas estão mal; temos muitos acidentes; temos atrasos nos voos, etc. Isto é, essas coisas não estão a funcionar como funcionam, por exemplo, na Africa do Sul ou no Japão. Nós precisamos de tempo e de produzir os recursos necessários para termos um sistema de justiça como o da Dinamarca, estradas como as da Alemanha, gestão de tempo (incluindo o de voos) como a do Japão. É desonestidade que alguem nos venha exigir que tenhamos tudo isso “até Março”.

Enfim, pessoalmente, acho que Machado da Graça só pode ser desculpado de estar a ser desonesto pelo facto de que ele deve ter investido muito tempo a tentar enganar-se a si próprio.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Um Texto Augusto - A Resposta de Machado da Graça a Phiri

Na página 6 da última edição do Savana, na sua habitual coluna "A talhe de foice", Machado da Graça escreveu um texto intitulado "Um texto augusto" que serve de resposta ao texto de Tadeu Phiri que foi também publicado aqui e no semanário Domingo de 3 de Janeiro de 2010. Reflectindo publica a resposta de Machado da Graça Aqui. Já falei com o Phiri e autorizei-o a, educadamente, usar este meio para responder a tão nobre senhor.

Há uma tendência generalizada na nossa esfera pública de nos preocuparmos com a pessoa que nos interpela e não com as suas ideias. Como diz José num comentário aqui Machado da Graça aproveita essa resposta para "revelar indirectamente quem ele pensa ser o Tadeu Phiri." (destaque meu)

Posso assegurar que Tadeu Phir é Tadeu Phiri. Pode ser que outros moçambicanos usem o nome Tadeu Phiri (conheço no mínimo quatro pessoas que usam o nome Júlio Mutisse e 3 deles nem se quer familiares directos são) mas aquele a quem empresto este espaço para expor as suas ideias é mesmo Tadeu Phiri.

A meu ver, o texto do Machado da Graça parte do pressuposto de que Tadeu não é Tadeu. Tadeu Phiri é um pseudónimo de alguém. É isso que ele sugere quando diz estar “habituado a que os textos que me criticam ou atacam sejam quase sempre assinados com pseudónimos.”

Sobre a mudança, eu Júlio Mutisse, sempre advoguei que Machado da Graça não mudou. Mudou a FRELIMO, o país, a região, o continente, o mundo mas Machado da Graça não mudou. Se os contextos tivessem permanecido os mesmos é possível que Machado continuasse casado com a FRELIMO. Presumo que tenha havido abertura a mais e para muitas coisas que precipitaram o divórcio.

No campo político, a conjuntura desde Marx foi sofrendo mutações. Mesmo a China teve que reformar o seu sistema. Aliás, na celebração dos 60 anos de comunismo, o presidente chinês referiu que “somente a reforma e a abertura podem garantir o desenvolvimento do país." Portanto, as mudanças e abertura são necessárias. E Machado não mudou, mudou a FRELIMO. Pode ser que a FRELIMO, o país, a região, o continente e o mundo estejam errados e que Machado esteja certo mas mudanças houveram e terão que continuar a acontecer para alcançarmos o desiderato do desenvolvimento.

E a capa do racismo. Essa já nos desviou do essencial muitas vezes.

Mas deixemos que Phiri venha e responda. Não fez até agora porque, como ele diz, ainda está na idade activa tem uma formação que só será útil para o país se sair dos cómodos gabinetes com ar condicionado e aplicar o seu saber e experiência onde os moçambicanos precisam de produzir mais comida, ter mais água, onde as traduções necessárias são da língua local para o português ou, na melhor das hipóteses, para a língua materna dele, onde o celular falha mais vezes, Internet é uma miragem etc.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

O Que Estamos a Fazer para Prescindirmos da Ajuda Externa a Médio Prazo?

Discutíamos "Errand Boys - Cooperação Sim, Chantagem não!!" e Elísio Macamo sugeriu-nos uma outra perspectiva de análise da questão da ajuda externa: o que estamos a fazer para prescindirmos Desta ajuda a médio prazo?

É uma abordagem interessante. De facto, passamos muito tempo a discutir o "descalabro" do Estado caso a ajuda seja cortada, e dispensamos pouco tempo para pensar o que cada um de nós está a fazer para pôr fim a dependência da boa vontade dos estrangeiros em ajudar-nos e/ou da possibilidade de o saco deles "encher-se" com os erros que o Governo possa cometer no processo governativo, muitas vezes empolados pelos nossos próprios compatriotas para exactamente "exigirem" o corte da ajuda externa.

De facto, "temos que mostrar que esta dependência nos incomoda com acções concretas destinadas a acabar com ela." Este é um must. Agir.

Basílio Muhate, como eu, nunca tinha olhado para esse lado da moeda que o Elísio nos sugere, ao mesmo tempo que acha que para sairmos da dependência é: "produza, consuma e exporte Moçambicano."

Qual é o nosso indicador da eficácia da ajuda externa? A Erva pergunta qual é o indicador de que a ajuda é eficaz? Para ela é justamente a redução da dependência da ajuda.

A questão do que se está ou se vai fazer colocada por muitos comentadores na discussão a que me referia parece que retornou no questionamento que Egídio Vaz faz em comentário ao texto sobre a pobreza urbana publicado no blog do Presidente da República aqui.

Egídio Vaz destaca duas ideias principais que, quanto a ele, enformam a ideia principal de AEG no referido texto:

  1. Existem oportunidades que, exploradas ou optimizadas, podem contribuir para o combate à pobreza urbana. Prova disso são as diversas iniciativas que podemos testemunhar e que contribuem para a geração de emprego.
  2. Porém, para que essas iniciativas contribuam de forma eficaz no combate a pobreza urbana, é necessário, senão fundamental que as pessoas trabalhando em diversos sectores (a) se profissionalizem, (b) agrupem-se em associações e (c) aprimorem os seus conhecimentos sobre a legislação laboral para daí tirarem melhor proveito.

No mesmo texto, ainda segundo E. Vaz "está também implícita a ideia de que para o sucesso dessa luta contra a pobreza, é preciso que TODOS e cada um de nós preste a sua contribuição."

Portanto, é preciso agir. Se todos, enquanto cidadãos temos algo a fazer para acabar com a dependência externa, com a pobreza urbana e todas as manifestações da pobreza, há acções que, a outro nível devem ser tomadas por quem governa. Em poucos dias saberemos quem, em cada sector, coadjuvará o Presidente nos esforços para a erradicação da pobreza. Em pouco tempo poderemos obter respostas aos questionamentos do Egídio lá "no AEG" nos termos dos quais "resta saber do Sr Presidente, o que fará com o seu governo? Da mesma forma que explanou sobre as oportunidades que podem ser exploradas pelo povo, esperava também ouvir as principais linhas de acção do Governo e Estado no combate a essa pobreza urbana. O Sr Presidente mencionou por exemplo a falta de infraestruturas de água, saneamento e higiene. Como pensa abordar esse facto na sua governação?"

Temos que agir. Trabalhar, contarmos mais connosco e deixar de ver o "fora" como solução para todos os nossos problemas. Temos que inovar e aceitar correr riscos para termos mais e melhor. Moçambique pode dar certo pelas acções de todos e de cada um. Não acham?




quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Os Nossos Compatriotas Zangados (3) As Vítimas

Depois de Gonçalves Matsinhe ter publicado o primeiro e o segundo números desta série intitulada "os nossos compatriotas zangados," (aqui e aqui) prossigo deste lado publicando o terceiro número sobre "As Vítimas." Chamo este assunto para aqui depois que li e comentei o post do meu amigo José aqui.

Os Nossos Compatriotas Zangados (3) As Vítimas

Por E. Macamo

Solenes e desolados/os montes emergem/mais graves e escuros. Continuo fascinado com Fernando Couto. Neste verso ele fala da neblina, aliás, ele fala dos montes que ficam visíveis quando a neblina se vai. Um véu de neblina/encobriu o vale, todo o vale:/ilusão de água e silêncio/lugar de engano. É neste contexto que os montes emergem mais graves e escuros. Todo o vale é morto/e nem as vozes ecoam/em descanso, os pássaros/resignados esperam/para retomar voos e cantos. Aqui Fernando Couto engana-se. Os pássaros não estão resignados, nem estão à espera para retomarem voos e cantos. Quando os montes emergem mais graves e escuros, os nossos compatriotas zangados gostariam de não mais retomarem voos e cantos que sejam. Eles gostariam que fosse verdade a sua convicção de que estão a lidar com gente má preste a fazer o pior.

Este é talvez o aspecto mais deprimente da constituição política dos nossos compatriotas zangados. Eles usufruem da liberdade de expressão que vamos aprendendo a praticar no país, apesar de toda uma tradição histórica autoritária fomentada por alguns desses compatriotas zangados, e mesmo assim insistem que essa liberdade é uma ilusão. Para falarem livremente precisam sempre de levantar o espectro de um país onde a distância crítica em relação aos detentores do poder é paga com a vida. Quando eles falam, aliás, para eles poderem falar precisam de preparar o terreno. E o terreno que preparam é um terreno cheio de cadáveres de homens e mulheres íntegros que foram tombando assim que abriram a boca para falar a verdade. Se alguém, à excepção deles, claro, critica e mesmo assim não lhe acontece nada, não corrigem as suas convicções. Acham que essa pessoa deve estar feita com o poder. Para falar de forma impune é porque teve a autorização do poder.

Assalta-se a redacção de um jornal qualquer, grita-se logo “querem nos silenciar!” como se fosse realmente possível, nos tempos de tecnologias de informação que vivemos actualmente, silenciar seja quem for. Se ultrapassam os limites da liberdade de expressão e o poder judicial se coloca na sua peugada, gritam até ficar roucos que estão a ser perseguidos. Exclamam, com razão – diga-se de passagem – que os nossos tribunais só funcionam quando são eles. Mas, claro. Cada regime tem as suas prioridades. Não se preocupam em verificar os detalhes concretos da lei para perceberem porque a Procuradoria Geral da República levanta esta ou aquela acusação. É logo socorro! Se não são convidados a irem falar mal do governo em algum órgão público de informação, ficam amuados e começam a desfiar as suas teorias de conspiração. Se alguém morre e estava ligado ao poder, especulam quem estará por detrás da sua morte. O que sabia ele, indagam-se.

Não tenhamos ilusões. O nosso país é muito violento. O crime faz das suas. A pobreza exacta também as suas vítimas. As doenças, as dificuldades com a técnica e a civilização fazem também das suas. Há também gente muito rancorosa em alguns dos nossos órgãos de soberania. Na polícia, no exército, nos serviços de segurança do estado. Sobretudo a nossa polícia continua com enormes dificuldades de interiorizar que a sua função é de defender o povo, que a segurança do povo está acima da necessidade de prender criminosos. Nenhuma vida humana pode ser sacrificada só porque se estava na peugada de criminosos perigosos. Há gente inocente que vai morrendo por aí em resultado deste mau jeito. E é grave que os agentes responsáveis por isso não sejam trazidos à justiça. Os sindicatos da droga e suas possíveis ligações com gente menos idónea nas hostes do poder não são feitos de gente pacífica. É gente violenta e sem escrúpulos. Pode matar. E mata.

Portanto, morre-se no país. Mas não se morre por criticar. Nem mesmo quando a crítica é mal formulada, como é quase sempre quando se trata dos nossos compatriotas zangados, se coloca a vida em perigo. Quando muito, perdem-se oportunidades. E isso é normal em todo o mundo. O nosso país não ficará mais tolerante e democrático no dia em que o governo do dia vai promover os críticos, organizar as suas festas de aniversário e bodas de prata. De resto, se um governo fizesse isso os próprios críticos não gostariam. Diriam que estão a ser comprados como, aliás, têm dito quando alguém que eles consideravam crítico “assume funções” como se diz entre nós.

Enfim, é difícil ganhar neste ambiente envenenado. Malditos se eles matam; malditos se eles não matam. Mas como diz Fernando Couto: É Outono e o sol há-de voltar. Sim, é a liberdade de expressão, mas a censura há-de voltar se mais não fosse para dar alegria aos nossos compatriotas zangados.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Machado Da Graça, Um Messias Contra Os Seus Jovens Discípulos

Fechamos o ano debatendo um texto do Tadeu Phiri aqui (um debate que será retomado no sentido sugerido pelos 3 últimos comentários). Para desejar "boas entradas" a 2010 na melhor que o Phiri de novo com novo tema que deve merecer nosso crivo aqui.

Porque é que, com o tempo, as vontades mudam tão radicalmente?

Machado Da Graça, Um Messias Contra Os Seus Jovens Discípulos

Tadeu Phiri

Muitos de nós crescemos a ouvir e a ler as arengas patrióticas de Machado da Graça. Na verdade, este digno jornalista foi um dos mais entusiastas arautos da Revolução, do Homem Novo e da Ditadura do Proletariado. Lê-lo e ouvi-lo a defender estes ideais era um regalo.

Lembro-me, por exemplo, da crónica triste que escreveu aquando da aprovação da nova constituição multipartidária dizendo “para muitos deputados que acabavam de aprovar o novo texto constitucional, como para mim, na modesta cabine da Rádio Moçambique, aquilo que acabava de ser aprovado na sala era, por um lado, o desfazer de um sonho de juventude, a falência, pelo menos para já, de um projecto lindo...” (Crónica O Virar da página, de 30 de Outubro de 1990).

Em minha casa, todas as sextas-feiras depois do noticiário das 12.30 horas, o meu pai, que era um dos seus grandes admiradores, ordenava um silencio quase sacramental para ouvirmos em família este porta-voz oficioso a ler, com a sua voz vibrante e embargada, a sua crónica semanal que era uma verdadeira convocatória ao patriotismo, aos princípios revolucionários e ao mundo novo.

O Machado da Graça desse período quase pré-histórico não contemporizava com qualquer forma de ingerência nos assuntos internos da nossa terra. Os seus textos eram extremamente severos contra todas as tentativas do imperialismo e dos saudosistas do colonial-fascismo de darem lições ao nosso povo e ao novo Estado que estava então em alvorada. A sua severidade era extensiva aos agentes internos infiltrados nas nossas fileiras.

A maneira como se posicionou aquando da apresentação dos primeiros Partidos políticos é, a este respeito, paradigmática. Foi um dos que mais contribuiu para instilar na opinião pública a ideia de que esses Partidos eram o resultado de gente frustrada, ambiciosa e demente. As crónicas que escreveu sobre o Palmo (Um futuro originário, de Outubro de 1990 e Um Palmo no mau caminho, de 22 de Fevereiro de 1991), sobre a Unamo, sobre o COINMO e sobre o MONAMO (O gatinhar da democracia, de 14 de Maio de 1991 e Filme de terror, de 17 de Maio de 1991) podem ter contribuído imenso para a falência precoce dessas experiências políticas. Sobre Máximo Dias disse “...Mas onde os lapsos de Máximo Dias chegaram a um ponto mais inquietante foi quando afirmou, por duas vezes seguidas, que estava aqui, em Portugal. Lapso que atribuiu a uma estadia prolongada naquele país europeu mas que, devidamente analisado por um psicólogo, talvez revelasse um íntimo desejo oculto”. Se se tiver presente o contexto, e se nos recordarmos que Machado da Graça era uma voz sonante do jornalismo da época falando de uma elevada cátedra que era a Rádio Moçambique, entender-se-á que os seus posicionamentos determinaram, em grande parte, a percepção pública em relação ao novo fenómeno que era o multipartidarismo.

Tem sido pois com espanto e fascínio que tenho acompanhado o alinhamento actual deste prestigiado jornalista com fenómenos que outrora combateu com denodo. Num dos seus últimos escritos revolta-se contra jovens que cresceram a ouvi-lo e que hoje se posicionam contra as tentativas do chamado G-19 de humilhar o nosso país. Jovens que não concordam que um qualquer Todd Chapman esteja mais interessado em combater a miséria que afecta o nosso país do que os próprios moçambicanos. Jovens que se opõem a qualquer forma de relacionamento baseada em ultimatos do género “se o governo não melhora os indicadores de redução da pobreza até Março, cortamos a ajuda. Se o governo não altera a lei eleitoral até Março, cortamos a ajuda. Se o governo não melhora os indicadores de luta contra a corrupção até Março, cortamos a ajuda.” Machado da Graça designa de patrioteiros esses jovens que cresceram a ouvi-lo a ler proclamas patrióticas.

O digno jornalista parece acreditar que os africanos são incapazes de construir o roteiro do seu próprio desenvolvimento. Numa atitude salpicada de laivos de racismo ele aparece a postular que esses jovens moçambicanos preferem chafurdar na sujeira que lhes é típica do que “tomarem o banho que, de fora, lhes querem impor”. Será que acredita, este jornalista de referência, que os que nos querem dar o tal banho limparam as suas próprias porcarias em dois tempos? Acredita este decano do jornalismo moçambicano que esses países que hoje nos querem dar lições eliminaram a corrupção nos seus países e alcançaram os actuais níveis de boa governação em dois tempos?

Quanto tempo e quanto dinheiro esses países investiram no seu sistema de justiça? Moçambique teve o mesmo tempo e os mesmos recursos para formar juristas (que há 35 anos não existiam) e colocá-los em todos os seus distritos e postos administrativos? Quanto tempo e que recursos esses países despenderam para estabelecer as fundações do seu eficiente aparelho de estado? Não se dá conta o emérito jornalista que no dia que tivermos boa governação como a do G-19 já seremos tão desenvolvidos como eles? Não se dá conta que no dia que tivermos um aparelho de justiça tão rápido e eficiente como o do G-19 a investigar e a punir fraudes financeiras seremos já um país tão desenvolvido como eles. O que estamos a dizer é que as coisas que os actuais amigos de Machado da Graça querem que Moçambique resolva “até Março” eles levaram séculos a construir.

E não se trata de que nos indignemos “quando eles (a tal comunidade internacional) nos pedem contas sobre como esse dinheiro é gasto...” como se alega por aí. Somos favoráveis a que se façam auditorias regulares para se aferir se os procedimentos financeiros e de procurenment PREVIAMENTE acordados estão a ser cumpridos. Para aferir se os objectivos e indicadores de desenvolvimento PREVIAMENTE estabelecidos estão a ser cumpridos. Opomo-nos, isso sim, a que um qualquer encarregado de negócios sonhe com um vago e confuso princípio de inclusão e, no dia seguinte, queira impô-lo, na forma de chantagem, ao nosso Governo. Opomo-nos a que cada diplomata estabeleça a sua própria definição de boa governação, as suas percepções sobre a corrupção no país, o seu conceito unilateral de democracia e, na base dessas conclusões subjectivas, se queira humilhar todo um país. Na verdade, os critérios de avaliação da eficácia da cooperação DEVEM ser acordados previamente por ambas as partes. Não devem resultar de improvisações, sonhos ou alucinações duma das partes.

Deixem o nosso país seguir o seu próprio caminho para o progresso. O Governo que está a ser chantageado no fim do seu mandato aprofundou a visão deste país para o desenvolvimento. Uma das vias é a que causa úlceras gástricas ao G-19 e ao ilustre jornalista: os 7 milhões. O jornalista outrora admirado por meu pai diz num dos seus últimos textos que os G-19 estão “preocupados por o seu dinheiro estar a servir para reforçar a presença da Frelimo nos distritos, através dos chamados 7 milhões... ” Este grande jornalista ignora o facto de que esta iniciativa deu a todos os nossos distritos recursos para financiarem a produção de mais comida, gerarem mais postos de trabalho e criou a facilidade para que indivíduos de extractos sociais humildes, que de outro modo não teriam como financiar as suas iniciativas económicas, tivessem a possibilidade de serem actores reais na vida económica do país. Mais do que ultimatos, as bases para a boa governação e para a redução substancial da pobreza provirão da multiplicação de iniciativas como esta.

Porque é que Machado da Graça e outros como ele passaram de inimigos da tutelagem estrangeira a amigos de banhos dados aos africanos por potências estrangeiras? Esta é uma questão de difícil resposta. Uma das chaves de resposta é-nos dada pelo próprio quando sugere que eu e outros que nos posicionamos contra a tutelagem externa fazemo-lo para “mostrar serviço para que as manjedouras continuem cheias com os saborosos restos do banquete dos poderosos”. Podemos presumir desta clave que nos é dada pelo prestigiado jornalista, que nos tempos em que se assumia como arauto da moçambicanidade as manjedouras andavam cheias “com saborosos restos do banquete dos poderosos”. Deixaram de estar cheias ou ele e outros seus semelhantes passaram a querer mais? Confesso que não sei. Ele e os seus amigos poderiam elucidar-nos. Uma outra explicação para a mudança pode radicar na probabilidade de Machado da Graça e seus iguais terem percebido que o estar contra compensa. Ele e os seus iguais podem ter percebido que, como grupo com características específicas em termos de trajectória política e social, poderiam ter melhores manjedouras se virassem as casacas. Só que ficaram muito amargos e rancorosos.

Os tempos, porém, mudaram. Muitos de nós que hoje nos posicionamos no debate público estamos na academia, estamos na consultoria, estamos nas organizações internacionais, estamos na magistratura. As regras da nossa progressão estão claramente estatuídas. Podemos prever com clareza o que precisamos de fazer para chegarmos a catedráticos ou a juízes de primeira. Não há como nos frustrarmos e ficarmos amargos. E, sobretudo, vivemos do nosso esforço e não de oportunismos de circunstância determinados por manjedouras como a do G-19, para as quais o referido jornalista está agora com os olhos virados.

Adenda: "Os Nossos Compatriotas Zangados" foi o título de uma série que, Elísio Macamo fez publicar no Jornal "Notícias" em tempos que, pelo seu interesse para o debate que temos tido aqui, Gonçalves Matsinhe publica no seu blog AQUI, depois que o primeiro número dessa série foi publicado também AQUI.

Adenda 2: O José põe "Machado da Graça Na Berlinda" aqui.

Adenda 3: Matsinhe postou o nº 2 da saga dos nossos compatriotas zangados aqui

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Errand Boys - Cooperação Sim, Chantagem Não!!

Mesmo a fechar o ano, brindo vos com esta reflexão do meu amigo Phiri (obrigado por me enviar por email). Espero que 2010 seja melhor que todos os anos que passaram, que a esfera pública progrida no debate de ideias. Que, aqui neste espaço cibernético que cresce todos os dias, aquilatemos as nossas capacidades influenciando o que deve ser a agenda nacional a partir daqui de Moçambique sem andarmos a reboque do que os nossos "parceiros" dizem que deve ser a nossa agenda (sem insultos).

Errand Boys

Por: Tadeu Phiri

Têm sido veiculadas, por uma certa imprensa, notícias que referem que os doadores (G-19), também designados parceiros, estão a chantagear ao Governo, condicionando a sua “ajuda” à satisfação das suas exigências. A notícia é veiculada com o maior dos regozijos e a maior das satisfações dos seus autores! Isto é, está explícita a felicidade dos nossos compatriotas que veicularam tais informações, como quem diz: “que bom que o Governo está a ser chantageado pelo G-19”. Estamos muito atentos a estes moçoilos, mocinhos e moços de recados dos “doadores”.

É tanta a felicidade dos Errand Boys que até descrevem com minúcia os termos em que a chantagem será feita! “Se não se fizer isto deste modo e aquilo daqueloutro modo, a ajuda será cortada”! Mete pena ver moçambicanos a regozijarem-se pelo facto de os seus patrões estarem a chantagear o Governo do país que também é deles. Há não muito tempo recusaram-se terminantemente que estavam ao serviço de interesses estrangeiros. O que é que estão a fazer quando aceitam ser usados como moços de recados? A que interesses servem quando nos brindam e se regozijam com notícias que dão conta de que os seus patrões vão chantagear o governo?

Há nestes recados uma questão ética que pode ser levantada. Se é de diálogo que estamos a falar, e se esse diálogo está a ser feito com o Governo de um Estado soberano, porque esse diálogo tem que vir através dos Errand Boys? Os nossos amigos, os tais parceiros, esqueceram-se do endereço do Ministério dos Negócios Estrangeiros ou do Ministério de Planificação e Desenvolvimento? Como se espera que o Governo de um país deva reagir perante condições humilhantes a si colocadas através da imprensa?

Esta gafe ética pode não ser de todo inocente. Ela pretende transmitir aos moçambicanos de que os tais parceiros têm mais desvelo pelo bem estar do país do que o Governo do país. Pretendem transmitir a ideia de que os parceiros ocidentais amam mais Moçambique do que os moçambicanos. O que é obviamente falso, sendo esta realidade conhecida pelos tais parceiros e os seus moços de recado. Por este andar, não falta muito que os nossos moços de recados nos venham dizer que quando os seus patrões colonizaram África fizeram-no porque amavam África mais do que os próprios africanos. Façam-nos um favor amigos: poupem-nos desses vossos ataques histéricos de anti-patriotismo.

Podemos imaginar o resto da chantagem que os tais parceiros trazem. Dir-nos-ão que o nosso desempenho na luta contra a pobreza é fraco. E que se não melhorarmos até Março nos cortam a ajuda. Este absurdo ultimato parte do pressuposto de que estes nossos amigos estão mais preocupados com a nossa pobreza do que nós. Que tudo o que nós estamos a fazer para melhorar a nossa vida, tanto no campo como na cidade, fazemo-lo porque os doadores exigem. Que monstruosa presunção!

Virão dizer-nos que a nossa lei eleitoral não é satisfatória e que se ela não melhorar até Março nos cortam a ajuda. Esta grosseira condição ignora o esforço que as forças políticas deste país vêm fazendo desde o alcance da paz. A Conferência Multipartidária dos princípios da década 90 tinha como um dos seus objectives encontrar procedimentos eleitorais consensuais. Estes consensos continuaram a ser construídos na primeira, segunda e terceira legislaturas multipartidárias quando as forças políticas no parlamento procuraram incessantemente, aperfeiçoar a sua lei eleitoral, tomando também em conta as recomendações do Tribunal Supremo, do Conselho Constitucional, dos órgãos eleitorais, dos observadores nacionais, da academia e dos observadores externos. Essa busca incessante do consenso não foi determinada por chantagens de doadores nem por recados dos seus Errand Boys acoitados em alguns sectores do jornalismo moçambicano. Este país continuará a aperfeiçoar a sua lei eleitoral independentemente de chantagens e de recadinhos.

Não precisamos que “doadores” nos venham dizer o que carece de melhorias. Somos lúcidos o suficiente para percebermos o que está mal e carece de melhorias.

A “ajuda” não os dá o direito de nos chantagearem. Já podemos imaginar a pressão que será feita ao Governo que será formado no ano de 2010. Vão querer impô-lo agendas e, caso tais agendas sejam recusadas, a chantagem será a de que a “ajuda” será cortada. Vão se esquecer estes nossos amigos que houve um manifesto eleitoral que foi votado por mais de 70% dos votantes. Para eles o que interessa são as suas agendas e não a agenda dos moçambicanos.

Mas que fiquem claros sobre uma coisa: se não querem cooperar connosco, que não cooperem! Os moçambicanos não são servos dos doadores. Parem de nos ameaçar. E digam aos vossos moços de recados para pararem de nos transmitirem os vossos recados. Se querem cooperação, que seja por bem. Que fique bem claro que tudo que for melhorado no próximo quinquénio sê-lo-á por mérito dos moçambicanos. Não precisamos que venham pessoas de fora para nos lembrar que temos que resolver os nossos problemas. Nem precisamos que nos mendem recados através dos seus Errand Boys.

Cooperação sim, chantagem não.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Que Jornalismo Temos em Moçambique? (2) Que Leitores Somos?

Retomo este tema sempre fascinante sobre o jornalismo moçambicano numa outra perspectiva: que leitores somos? Esta nova abordagem foi me induzida pelo comentário de Elísio Macamo (aniversariante na próxima semana) ao meu post anterior sobre o assunto, que reproduzo abaixo.

Que leitores somos camaradas?

Ola a todos,

Acho que os problemas apresentados pelo nosso jornalismo não são unicos. nestas bandas tambem ha jornalismo que só arrepia, incluindo imprensa dita de qualidade.

Uma coisa que me parece susceptivel de disciplinar melhor os jornalistas é a qualidade de leitura. Os leitores têm que ser mais criticos, mas aqui é onde reside o nosso principal problema como, aliás, podemos ver em muitas discussões mesmo nos blogues onde continuam a verificar-se casos de gente que não lê atentamente o que os outros escrevem, mas sente-se habilitada a fazer comentários profundos.

No meu defunto blogue investi algum tempo e esforço a atacar esse problema, mas em muitos casos foi em vão. Portanto, Júlio, esqueça os jornalistas. concentra-te nos leitores!

Aproveito desejar boas festas a todos!

e. macamo

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

A Propósito dos 61 Anos de Miragem

A propósito de Direitos Humanos: 61 Anos de Miragem, um post publicado no Blog do meu amigo Custódio Duma, e trazido a debate via email pelo desaparecido Salema (o Ericino), o Milton Machel colocou algumas questões que julgo importante ampliá-las por esta via para benefício dos que não receberam o Email. Reproduzo igualmente a resposta do Ericino ao Milton.

Basílio e Salema, meus caros. Algumas inquietações de ocasião:

O que significa, de facto, quando proclamamos A Luta Continua? (vamos continuar a fazer as mesmas coisas, a lutar do mesmo jeito?)

O que é isso de Geração da Viragem que somos agora (que viragem pretendemos induzir e conduzir)?

Que Utopia nos impele e compele a Lutar por Moçambique (para Moçambique ser o que)?

Por que Direitos afinal estamos a lutar? Em que etapa da Luta pelos Direitos Humanos estamos? Como estamos a lutar?

Qual o sentido de autocrítica nessa Nossa Luta pelos Direitos Humanos?

Ate que ponto somos, os mais esclarecidos, os mais privilegiados, os mais mediáticos, agentes dessa Causa em cada acto público nosso?

Andamos a pregar, palestrar, debater os Direitos Humanos, mas que pedagogia dos Direitos Humanos realmente praticamos?

Será mesmo o mais importante que A Luta Continua, qual praxis...ou como continuar a Luta?

Se me conseguirem responder ao meu Estado de Inquietude patente neste questionário, ser-me-ão de grande ajuda... há um pensamento em mim que se quer organizar sob a orientação desse puzzle de questões, mas não encontro a bússola manos, ajudem-me a acha-la!!!

Bem, retorno a minha reclusão sabática na companhia do Obama (A Minha Herança) e do Amin Maalouf (As Identidades Assassinas)...prontos, the struggle must continue...but what struggle, and How?

Aquele abraço, MM

Caro Milton,

Em prefácio à primeira edição do “Compêndio de Documentos-Chave dos Direitos”, Julia Dolly Joiner, comissária para os assuntos políticos da União Africana, refere que os Direitos Humanos, a segurança humana e o desenvolvimento humano são interdependentes, indivisíveis e inter-relacionados, constituindo, assim, elementos inseparáveis na demanda de África pela prosperidade.


O continente em que o nosso país se situa continua, hoje por hoje, a enfrentar sérios desafios no que diz respeito aos Direitos Humanos. O genocídio de 1994 no Ruanda, diz Julia Joiner, é a mais vívida recordação da necessidade urgente de reforçar a nossa determinação e os mecanismos para a concretização dos Direitos Humanos para todos em toda África.


Por cá, é por demais óbvio que há muita luta por ser levada a cabo, para que os Direitos Humanos sejam sinónimos de segurança humana e de desenvolvimento humano. Sem, nisso tudo, nos esquecermos do facto de o Estado ser o único sujeito activo do crime de direitos humanos.


Quando se diz a luta continua, não se pretende, penso, significar que, no campo da comunicação social, por exemplo, continuaremos a dar o nosso contributo sem investigação; que, no campo do acesso à justiça, continuaremos a ‘conviver’ com inúmeras almas impedidas de aceder à justiça, devido às elevadas custas judiciais; que, no domínio da efectivação do direito à habitação, continuaremos a achar ‘normalíssimos’ o convívio com juros proibitivos. Continuar a luta é alterar o status quo, onde tal se mostra necessário. Sempre, mas sempre mesmo, com a necessária sofisticação e determinação.


No campo dos media, em particular, conforme explicava há meses em entrevista ao “Bantulância”, de Josué Bila, a luta no domínio dos Direitos Humanos não pode ser somente feita com um ‘jornalismo pão e manteiga’…


Outra vez, mano Milton, “A Luta Continua!”, como canta a saudosa Miriam Makeba. Venceremos? O mundo da utopia pode nos proporcionar óptimas respostas a esta indagação…que nada tem de helénico!


Pergunto: o caminho está claro?