segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Delírio - Um Livro Por Publicar

Fui egoísta durante 2 anos. Explico-me: a 13 de Outubro de 2005, meu amigo Policarpo Cristovão Mapengo (PC Mapengo) ofereceu-me uma colectânea de textos escritos ao longo dos últimos anos. Eram poucos, mas bons. Hoje já são em número suficiente para publicar um livro. Um livro meu com textos do PC Mapengo. Eis um deles (o livro sai em breve):

O Poema Que Não te Escrevi

Acredito que o amor é eterno!

Terei todo o tempo do mundo para te escrever um poema de amor.

Este é o poema que não te escrevi. Não tenho tempo para te falar das flores e da água do mar. O mundo está em chamas e nós marchamos nas avenidas universais apelando pela paz. Formamos movimentos anti-globalização ou pela globalização cooperativa em que não só consumimos macdonald como também oferecemos xigubo. E de bandeiras em punho seguimos na frente de combate apelando para o fim da guerra e para redistribuição da riqueza por partes iguais.

Somos guerreiros modernos que ainda acreditam que o movimento cívico é das armas mais letais.

Não tenho tempo para te escrever um poema meu amor!

Acreditava que a nossa causa era justa, que iríamos vencer para oferecermos um mundo melhor aos nossos filhos. Aí, todas as noites antes de dormirmos faríamos amor e te recitaria poemas ao amanhecer sem medo e sem ver nas televisões noticiários de guerra, me envergonhar pelas tristes imagens de Darfur. Dizias-me que essa era utopia de homens modernos que não aceitam ser comunistas mas continuam a perseguir o sonho vermelho em shows de Bono Vox e Bob Geldof. Pode ser meu amor, mas a minha ideologia é um comunismo capitalista!

O show vai acabar meu amor, aí iremos a beira-mar ver o pôr-do-sol e te escrever um poema de amor.

Agora não tenho tempo para te escrever um poema!

Agora tenho de escrever meu manifesto para a Nina. Ela não entende poemas de amor, ela não entende linguagem de paz e amor enquanto vê uma imagem chocante de G-8 em volta a uma mesa farta em que os líderes não comem por não saberem o que comerem enquanto de outro lado, no vale de Níger onde se sente o rico cheiro de petróleo há muita gente que não come por não ter o que comer.

Agora não posso te escrever um poema de amor!

Tenho de falar dos homens sem tecto que sonharam com um país melhor e o máximo que conseguiram foi uma bala no seu corpo e um despachado caixão de seus companheiros de luta enterrado debaixo da terra como tecto.

Achas que me resta tempo para te escrever um poema de amor?

Quando o mundo for melhor, te escreverei um poema de amor. Falarei do seu corpo a escaldar enquanto te contorces de prazer, qual sol sobre África em tempo de aquecimento global.

Vês meu amor, agora só sei falar de aquecimento global, só sei falar do protocolo de Quioto, só sei falar de questões ambientais que vão dando cabo deste continente, da água que será a principal causa da guerra.

O poema que não te escrevi, fala das crianças a correrem no meu país sem medo de bombas sem temerem a diplomacia de guerra. O poema que não te escrevi fala dos teus olhos a brilharem por não teres a preocupação do que comer amanhã.

Poema que não te escrevi é um poema de paz e amor!

PC Mapengo!

(O LIVRO SAIRÁ EM BREVE - este é apenas um cheirinho)

4 comentários:

Bayano Valy disse...

Hmm.... Onde andará o Policarpo. Interessante abordagem que ele faz. Todavia, penso que deviam mudar o título. Acho que já existe um poema ou livro com esse título.

Um abraço e fico à espera do livro

Martin de Sousa disse...

Gostei da abordagem principalmente da seguinte passagem: "Somos guerreiros modernos que ainda acreditam que o movimento cívico é das armas mais letais."

Eu quero ser um desses guerreiros modernos que ainda acreditam que o movimento cívico é das armas mais letais, e gostava de levar comigo uns tantos para a rebelião e que ninguém bazasse na hora da intervenção (como diz o Valete)

Martin

Júlio Mutisse disse...

Thanks Bayano.

Vamos pensar na sua ideia de mudança de título. A verdade é que o livro já foi entregue a uma editora para análise.

JSM

PC Mapengo disse...

Para Bayano e Martin

Bayano, começo por lhe dizer que ainda ando por esta terra e, como diz Julio veremos a possibilidade de mudar o titulo para nao se confundir com, penso eu "as palavras que nunca te direi" ou algo parecido.
Quanto a sermos guerreiros modernos que acreditam na palavra, eu faço parte desse exercito, também podes fazer Martin, mas temos de esperar que nos acusem de "vendedores de utopia", o que importa é acreditarmos que temos algum papel nesta sociedade.

PC Mapengo