terça-feira, 5 de janeiro de 2016

O Emprego



O Emprego

Júlio S. Mutisse

“Não espere o melhor emprego para começar a trabalhar.”
By: Wellyngthon Marques

Não existe discurso de uma organização juvenil que não enfoque na “problemática do emprego”. Deve ser para responder a esta preocupação que o Governo, no Plano Quinquenal, se comprometeu a criar 1 500 000 novos postos de trabalho, numa proporção de 300 000 ano.

Ao falar de emprego nestas linhas, me refiro à relação que se estabelece entre empregador (que dirige o trabalho) e o empregado (que realiza o trabalho). 

Mas como se acede ao emprego? O que é que as empresas buscam nos candidatos? O que é que condiciona o acesso ao emprego? Que qualidades devem ter os candidatos ao emprego? Que relevância é dada às competências do candidato ao emprego?

Creio que as empresas, atendendo à sua natureza e ao foco no lucro, procuram profissionais com determinadas competências, com determinado perfil, com determinados valores éticos e comportamentais etc.

Portanto, não basta ser formado e/ou ter alguma experiência profissional; é preciso cultivar outros aspectos e qualidades que, hoje, são determinantes para o acesso ao emprego. Mesmo dando relevância à formação, é importante avaliar se as diversas escolas estão a formar para o saber fazer. Mas esse é outro debate.

Escritos de especialidade em recursos humanos coincidem na ideia de que, mais do que formação e experiência, o candidato ao emprego deve possuir qualidades como compromisso, responsabilidade, envolvimento, atitude, proactividade entre outras. Isto é, para além do canudo numa mão, o candidato ao emprego deve poder oferecer a quem contrata um conjunto de qualidades pessoais que o tornem distinto dos demais candidatos, sem descurar os aspectos de ordem moral, importantes em qualquer relação, seja ela profissional ou pessoal.

Parece-me claro que, neste exercício, vai contar em muito a atitude do candidato a emprego. Uma atitude correcta para responder à exigência acima descrita vai ser determinante para a avaliação do candidato ao emprego. 

Na época da comunicação em que vivemos, mesmo a nossa postura e atitude nas redes sociais e outras plataformas pode ser determinante na avaliação da pessoa e do profissional que somos ou podemos ser. É que, conforme referem especialistas, as redes sociais são “fonte de divulgação de interesses, preferências, experiências, contactos, crenças, valores etc.” através delas criamos redes, expomo-nos publicamente e demonstramos como somos, como pensamos, como agimos, o que gostamos e o que queremos. Assim, nos dias de hoje, “as redes sociais abriram a possibilidade de avaliar, antes de uma entrevista, aspectos mais pessoais do candidato, objectivos de vida e carreira, rede de contactos estabelecida, aspirações, entre outros relevantes aspectos” conforme escreve Ludmilla Fernandes no RH Portal, num artigo com o título “Redes Sociais e o Processo de Recrutamento & Selecção.” 

Portanto, o acesso ao emprego é algo bem mais complexo que a simples vontade política ou qualquer acção que se possa pretender do Governo. 

Qualquer candidato ao emprego deverá, antes avaliar condicionantes que dependam de terceiros, investir em adquirir as competências e as qualidades que as organizações necessitam na época moderna. Como referiu um dia Dino Foi, “Governo não cria emprego, impulsiona via sector privado e este quer pessoas sérias.” Esse impulso, numa realidade de crescente “Estado mínimo” deveria ser feito através de políticas públicas com potencial de geração de empregos. Com as metas de emprego definidas no PQG, e a meio da crise que o país vive, haverá necessidade de compreender se as políticas que serão adoptadas irão, ou não, concorrer para a geração de renda.

Isto equivale a dizer que, não basta aos jovens (filiados em organizações ou não) repetirem para os governantes a necessidade que tem de emprego; é necessário que invistam cada vez mais neles mesmos, nas suas competências, nas qualidades pessoais, humanas e morais. Este conjunto é, na verdade, o determinante e/ou condicionante para o acesso ao emprego. Por melhor que possa vir a ser a política de emprego a definir pelo Governo (no processo já iniciado) cabe a cada candidato ao emprego aquilatar-se para fazer face ao que as empresas procuram num candidato a emprego.

Ao mesmo tempo será importante rever o nosso compromisso para com esse emprego. A responsabilidade de que, muitas vezes, se fala quando se fala em emprego deve ser demonstrada, por exemplo, a partir da assiduidade, zelo até ao cumprimento dos prazos para a execução dos projectos.
Importante notar que será a partir dos rendimentos que se obtém deste emprego (que se quer estável) que poder-se-ão realizar outros desejos e “direitos” como seja o caso da habitação (tema que se segue).

PS: Um dia o Professor Lourenço do Rosário disse numa entrevista ao Jornal o “Universitário”, creio que em 2003, disse que as universidades estão a formar empregados. Treze anos depois, ano após ano, ouvindo os recém-graduados de todas as universidades, se alcança que a preocupação de muitos é “ter um emprego” mesmo quando logo a seguir, pelo Facebook ou outras plataformas, se apresentam com todos defeitos desde a escrita, coerência argumentativa até os comportamentais.

Pessoalmente julgo que devemos começar a dar uma ênfase maior ao trabalho; as escolas devem transmitir competências que permitam aos graduados a possibilidade de empreenderem e serem eles mesmos criadores de emprego. Infelizmente vivemos numa sociedade em que as pessoas preferem trabalhar por conta de outrem, onde muitas são capazes de abandonar uma actividade lucrativa para se verem “empregados” pela “segurança” de um emprego e o salário mensal “garantido” mesmo que mais baixo que o que se conseguia fazer trabalhando por conta própria.

Isto pode ser reflexo de uma cultura ou de como, ao longo destes anos, foi orientado o processo de ensino e aprendizagem no país e o tipo de formados que saíram desse processo. Pode ser reflexo do discurso político, que induz as pessoas a assumirem que haverá alguém a prover emprego. Aliás, 300 000 empregos ano dá para empregar todos os graduados do ensino superior, das escolas técnicas e até do ensino secundário geral. Pode ser essa a mensagem que o PQG passa para as pessoas e, não se concretizando, criará um exército de descontentes e contestatários de quem assim prometeu. 

Desta forma cria-se o desafio de o MITESS demonstrar de que é que fala quando se refere à criação desses postos de emprego, em que áreas e estatísticas sérias de emprego e formação no país.

Um comentário:

Egidio G. Vaz Raposo disse...

Eu julgo que a questão do emprego é uma questão de governação. POlíticas públicas pró-emprego criam emprego. A corrupção galopante retira oportunidades de emprego. A questão de emprego é também uma questao da organização da sociedade. Sociedades competitivas e inovadoras africanas como Kenia, Nigeria e Tunisia são relativamente mais avançadas na discussão do emprego.
Eu sinceramente julgo que devemos descer mais um degrau para a base, para questionar o que é isso de emprego? É um jovem da decima classe poder dar aulas a miudos da primeira? Ou é um licenciado em Agronomia poder estar em carros a supervisionar as machambas estatais?
As perguntas são cinicas, mas se olharmos para a nossa sociedade, a questão de emprego é uma não-conversa. Ela está dependente da nossa capacidade inovadora. So que ai está, inova quem quem sabe. QUEM SABE e quantos são em Moçambique? Julio, responde-me.