segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Ao Elísio Macamo, nas Vésperas do Seu Aniversário

Mano, não havia outro mês para nasceres? Tinha mesmo que ser Dezembro? As plataformas digitais em que andamos conectados me anunciam o seu aniversário para breve e, mesmo para fechar o ano (e fecharei com esta carta), te escrevo esta carta para te dizer parabéns e dar te notícias de Moçambique.
Sim, de Moçambique. Este país é relevante tão relevante que não escapou à investida wikilikiana com textos do famoso Todd, o Chapman.
Mais interessante do que as revelações a roçarem a irresponsabilidade daquele diplomata, foi a revelação (para mim) de que, no nosso jornalismo ainda ha intervalos de lucidez e há ainda jornalistas que buscam a essência das coisas, mesmo entre os chamados independentes cuja vocacao, muitas vezes, parece ser partir tudo o que tenha a ver com determinadas figuras e/ou partidos. Enquanto uns faziam eco de Chissano e Guebuza como “cúmplices” do narcotráfico, o Jornal Savana por exemplo sugeria “uma leitura desapaixonada dos Wikileaks” ajuntando que “alguma informação constitui uma aberração, e deve imediatamente ser rejeitada”, que as “mensagens estão recheadas de nuances, mas nunca chegam a acusar quer o actual quer o anterior Presidente da República de envolvimento no narcotráfico, como certas correntes têm tentado fazer crer” e que “com todas as suas imperfeições e erros de facto, os conteúdos das mensagens de Todd Chapman merecem ser analisados com alguma seriedade no que diz respeito à essência do que elas pretendem transmitir; que é o perigo de Moçambique se tornar num país de economia narcótica, onde a posição da nossa moeda nacional face às outras moedas de referência internacional depende significativamente das flutuações no fluxo de cash proveniente do negócio de substâncias proibidas, pondo em causa a sanidade da nossa própria economia.” Interessante ponto de vista este expresso no editorial do Savana não é mano? Não me enganei. Vem no Savana.

Este é o Wikileaks versão moçambicana. Como alguém afirmou noutro lado, é possível que após este escândalo haja uma nova forma saudável de fazer diplomacia. A ver vamos. Ainda ouvirei a sua opinião.

Estive no Xai-Xai dos nossos sonhos. Quando cá vieres melhor me levar como guia (ai cumprimos a promessa das duas cervejas que já dura um ano ou mais). Temo que não reconheças a cidade. De uma cidade dominada por cantinas quase centenárias e cujo laivo de modernidade no que ao comercio diz respeito emergia das lojas de conveniência das bombas ali instaladas, o cenário começa a mudar. Chegaram as grandes lojas de mobiliário, uma grande cadeia de supermercados instalou-se no Xai-Xai e na Macia, uma mundial marca de Fast Food (essencialmente frango) está em vias de se instalar onde alguns chineses e gentes de outras origens (nacionais e estrangeiras) lutam por dar uma imagem airosa da nossa cidade. Fiquei maravilhado.

O cenário de poucas alternativas no que ao alojamento diz respeito parece caminhar para o fim. Uma placa informou-me que um grupo vai reabilitar e operar o Hotel Xai-Xai. Não é interessante mano?

A imagem de uma cidade com pouquíssima oferta de serviços, quase atrasada tende a sumir. O tédio das diferenças com um Maputo que dista APENAS 200KM esfuma-se perante interessante oferta de serviços, espaços etc que implicam emprego para nossos irmãos e renda para as suas famílias. Pode ser que alguém não ache, mas h’a mudanças; há desenvolvimento. Traga uma legião de colegas daqui há um tempo que eles ficarão bem.

O Amosse Macamo meu amigo e colega de trabalho e de algumas outras batalhas falou dos “Embaixadores da Desgraça” antes, havia levado emprestado algumas das perguntas que orientam esse texto num post publicado aqui. Nessa época comentaste que “o único que se devia esperar de todos nós é falar com responsabilidade dentro e fora do país. falar com responsabilidade não é dizer o que não prejudica o país (porque isso seria difícil de determinar), mas sim o que é passível de ser discutido de forma construtiva na esfera pública. Infelizmente, é justamente isto que tem feito mais falta em muitos debates. por exemplo, achei que Jorge Rebelo tem sido menos responsável na suas intervenções por fazer afirmações que não conduzem ao debate de ideias. a sua sugestão de que os íntegros estão a ser corridos do governo parece-me bastante gratuita sob este ponto de vista. pelo contrário, acho as intervenções de Castel-branco muito responsáveis porque permitem uma discussão construtiva (independentemente de ele ter razão ou não). A coisa piora quando nós os demais reduzimos tudo ao "estar contra ou a favor" e preocupamo-nos pouco com a substância do que as pessoas dizem. Há muitos que pensam que participar na discussão pública é formar clubes de apoio a este ou aquele. O patriotismo não pode ser uma medida útil. O sentido crítico é que deve ser o nosso guia.” Não tenho dúvida que na diáspora onde estas usas o teu sentido crítico e com a sua cultura de trabalho etc, como diz o PR AEG, complementas a diplomacia deste país, sem ser nenhum wikileakiano e ajudas no bom caminho rumo a prosperidade como o exmo Sr. Presidente classificou o pais no seu informe ao parlamento.

Feliz aniversario Poiombo. Que Deus te dê longa vida e que curtas as festas da melhor forma possível.

Mutisse.

PS: Bem haja um jornalismo responsável. Felicitações à negação do escangalhar da imagem das pessoas com base em informações levianas. Parabéns ao Savana e a todos os jornais que trataram responsavelmente este assunto.

PS2: O espaço que damos a divulgar banditices cria os seus heróis. É difícil de negar que hajam estes fenómenos que Mapengo aborda aqui.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O Fim dos Tabus?

Contava que o post anterior fosse o último de 2010. Não será. Eis me aqui a fazer o meu exorcismo neste espaço.

Exorcismo? Sim. Tive uma semana atribulada. Perdi uma sobrinha muito querida. Tatiana Margarida Filipe Mutisse (30/03/2004 – 08/12/2010) deixou de fazer parte do mundo dos vivos vítima de um cancro pulmonar com que vinha lutando desde Novembro de 2009. A menina foi para um lado de onde não mais será actriz presencial do teatro e das atribulações da vida. Lá de onde vivem os anjos (que é o que ela se deve ter transformado) observará tudo de forma muito privilegiada. Em paz que é o que ela merece.

Exorcismo? Sim. Exorciso as dúvidas. Mando as embora e me entretenho a “sugar” a informação que vou consumindo. É vantajoso ser “mais clarinho” em Moçambique? Essa “vantagem comparativa” localiza-se em determinados segmentos de actividade ou em todos? Quem cria essas vantagens? Quem se beneficia delas?

Todo este exorcismo surge em consequência de uma resposta feliz de Sol de Carvalho em entrevista ao Jornal “o País” edição de Fim de Semana 11 de Dezembro 2010. Feliz porque Sol de Carvalho poderia ter sido MAIS politicamente correcto e fugir da tentação de falar de “brancos e pretos” nas respostas que deu a Policarpo Mapengo. Podia ter fugido e não dizer (em resposta a uma pergunta sobre a existência ou não de racismo no cinema) por exemplo que “não acho. O que acontece é que, simplesmente, por razões históricas as pessoas que ficaram, os cineastas e os profissionais do cinema, a maior parte delas são mais claras. São as pessoas mais claras que se impuseram.” Esta resposta segue uma outra em que Sol fala do mercado para novos profissionais, da experiência e refere que “depois seguem-se esses problemas de brancos e pretos… isso é outra conversa”.

Disse que o Sol foi FELIZ na resposta que deu. Foi sincero. A visão do Sol é generalizável? De que forma podemos pegar nestas coisas que muitos têm medo de abordar e discutir a nossa moçambicanidade, na nossa diversidade? De que forma podemos, todos nós, brancos e negros, falar de nós e nos sentirmos autenticamente moçambicanos sem determinados estigmas que nos apoquentam? Será possível abandonar as “razões históricas” que ditaram a criação de determinadas elites profissionais (no jornalismo – principalmente nos primeiros anos de independência de onde despontaram os Mias, Cardosos, Machado da Graça e outros – no Cinema, na literatura) e não reivendicar os “privilégios” inerentes num mundo competitivo como o de hoje?

Creio que sim.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

2010: Findando Com Mostras de Vitalidade e Seriedade.

2010 está prestes a findar. Entre bypasses polémicos, denúncias de corrupção no nosso futebol que ensombram a família do futebol no geral e uma família específica em particular (presente no dirigismo federativo, no dirigismo de um clube e no agenciamento de jogadores que tem tido menção honrosa nos jornais – e não só – por diversos motivos), julgamentos de casos de descaminho de fundos públicos, prisão de nacionais no estrangeiro transportando elevadas somas, anúncio da chegada dos 7 milhões aos (alguns) municípios, lá temos que olhar para trás e fazer a retrospectiva dos 12 meses que findam.

Há coisas boas que aconteceram e/ou estão em curso neste ano.

A primeira: RESPONSABILIZAÇÃO. Este blog tem muitas referências a necessidade de responsabilização perante actos ilícitos. O fortalecimento das instituições estatais e o cometimento do próprio Estado com o rigor na gestão da coisa pública, começa a mostrar-se com os julgamentos que se sucedem: depois do caso AdM vieram outros: Financas de Maputo, CPD e agora o caso MINT em julgamento e cujos implicados me merecem respeito porque inocentes até transito em julgado de sentença condenatória se houver.

Entre discursos redutores deste “movimento” responsabilizador (incluindo daqueles segmentos que vêm politiquices em tudo) não posso, neste 2010 a virar a esquina, deixar de congratular os profissionais da área da Administração da Justiça que de tudo fazem, para do lado que lhes cabe, manterem o Estado de pé. Bem hajam. Aos procuradores, juízes e outros profissionais (muitos dos quais compartilhamos os bancos da faculdade) o meu BAYETE.

Pobreza Urbana – é verdade que mais de metade da população moçambicana vive nas zonas rurais. Não discordo de quem tomou aqueles pontos como prioritários e, em mais de cinco anos, drenou lá milhões de meticais que tem ajudado a mudar a vida de muitos moçambicanos.

Porque a minoria urbana ou urbanizada que também sofre da pobreza havia que dar a estes condições de a combater. Os 7 milhões chegam as cidades. Cabe aos Municípios pioneiros nesta iniciativa, capitalizar esta iniciativa definindo estratégias próprias adequadas a situação concreta de cada município e que enfrentem o problema “de frente” rumo ao sucesso. Sei que o meu já está a fazer. Não haverão, em minha opinião, soluções pré concebidas válidas para todos, em todo o lado, de igual modo. Há situações próprias de cada local que tem que ser potenciadas. Avante. Aos presidentes dos municípios escolhidos o meu voto de confiança de que quem acredita que sairão soluções que reduzam a pobreza de mais moçambicanos.

As instituições funcionam. Há liberdade de expressão. Embora timidamente, começamos a abandonar a prática de discutir pessoas. Discutimos ideias. Cresce o movimento dos que procuram conhecer BEM os problemas para propor boas soluções num país cheio de soluções (rsss – como diz Elísio Macamo).

O meu Maxaquene superou-se este ano. É vice campeão em futebol, venceu a taça é campeão em Básquete. O Desportivo em femininos honrou o país no africano de clubes.

Coisas más… corrupção no futebol. Fala-se de corrupção em outros sectores. Um mal a combater.

Continuamos arregimentados. Parece que há os eternos “do contra” e os eternos “prós”. Muitas vezes emerge um debate de surdos em que não se busca a validade do argumento do outro. Busca-se o facto de ser do contra. Ultrapassemos. Que as minhas ideias sejam válidas por si e não em função do meu alinhamento seja de que natureza for.

Um abraço a todos e, antecipadamente, votos de feliz 2011.

Mutisse.



PS1: Que “O país” edição fim de semana cresça em 2011 e que seu editor e outros superiores hierárquicos no grupo não durma na sombra da qualidade que se reconhece ao produto.


PS2: Que Egídio Vaz e Noa Inácio voltem ao debate activo de ideias nos seus blogs e outros quadrantes.


PS3: Que o país progrida em 2011 e se afirme cada vez mais como incomodado com a ajuda externa e dê passos para se livrar dela.


PS4: Que eu ganhe o meu PRIMEIRO milhão de dólares.

domingo, 21 de novembro de 2010

Um Texto Contraditório e de Negação do Passado

Martin de Sousa colocou no seu blog Soldado Raso um texto interessante de Lopes Muapenta que vai na esteira do que temos discutido aqui, aqui ou mesmo aqui e na esteira do que disse num comentário no post anterior. Creio que podemos discuti-lo aqui ou lá no blog do Martin. O texto foi publicado no Jornal “Domingo” de ontem 21 de Novembro de 2010 com o título: Sérgio Vieira: Um Texto Contraditório e de Negação do Passado

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Os Embaixadores da Desgraça

As perguntas emprestadas do Amosse Macamo que coloquei no último post sobre os críticos, levantaram aqui e noutras plataformas um debate interessante a partir do qual o meu amigo desenvolveu e concluiu o raciocínio que apresento abaixo.

Os Embaixadores da Desgraça
Amosse Macamo



Enquanto cidadãos, sempre que colocados fora dos limites geográficos do nosso pais, tornamo-nos voluntária ou involuntariamente embaixadores do nosso país. Aliás, ser embaixador do nosso país quando no estrangeiro deveria ser um acto consciente de cidadãos responsáveis e comprometidos com o seu país.

A ideia da aldeia global rompeu com as fronteiras e aquilo que ontem era exclusivo das elites políticas e/ou de uma minoria com posses, está quase que ao alcance de todos, refiro-me por exemplo as viagens para o exterior. Hoje há um crescente número de pessoas que viajam para os diferentes cantos do mundo, ora estudando, ora trabalhando, ora em passeios e sem descurar as viagens virtuais, onde sentados num pequeno ecrã mágico podemos estar e em tempo real em conexão com pessoas de diferentes partes do mundo. Ora, ao entrarmos nestas viagens, nestes contactos, acabamos transportando voluntária ou involuntariamente, a imagem do nosso pais, ao que, uma pergunta urge fazer:


Como um moçambicano deve tratar assuntos sensíveis do seu país fora deste? E mais, como transmitir alguns factos (negativos) que internamente sabemos que são reais a quem é determinante para nós? (refiro-me a título de exemplo à informação que um moçambicano possa dar a um ente que contribui para o orçamento do nosso Estado).


Hoje, e a mercê das aberturas que acima anunciava, emerge uma nova classe intelectual moçambicana que viaja para fora e, se não viaja, consegue ter contactos com o exterior, com pessoas que querem saber mais sobre o nosso país. Alguns integrantes desta nova classe tem sido seleccionada dentre aqueles que não simpatizam com o governo de dia, sendo que são os mesmos que servem de fonte primária àqueles que de uma ou doutra forma, pretendem saber de nós.


São os que confirmam os dados contidos em estudos de campo feitos entre quatro paredes, são estes que quando razões internas de algumas nações obrigam que se achem culpados sobre qualquer assunto ajudam a encontrar, são estes que usando seus próprios e limitados critérios analíticos indicam os corruptos, os barões de drogas, os maus governantes, são, na verdade o olho pouco vigilante e o ouvido do outro, são, o que chamo de Embaixadores da Desgraça; pessoas a quem interessa somente mostrar a imagem negra do nosso pais lá fora.

Não me oponho que a informação saia para fora, aliás, com as tecnologias de informação pensarmos que podemos esconder alguma informação ou impedir algumas pessoas de reportar seja lá o que for não passa de um exercício inútil, contudo, ao sairmos lá fora, devemos informar e como bem dizia um amigo de ideias, com responsabilidade. Mas talvez seja importante recuperar a resposta deste meu amigo, quando coloquei a mesma pergunta de partida deste texto no meu mural do facebook.


Dizia o meu amigo e passo a transcrever: “Isso depende da consciência cidadã de cada um. O recomendável seria colocar os desafios alcançáveis em vez de expor os problemas, muitas vezes ideológicos.” E acrescenta este meu amigo, mesmo para explicar o porquê de informar com responsabilidade e o risco que incorremos ao relatar somente os problemas: “Porque, podemos pensar que ao falarmos tudo de mal aos brancos estamos a nos distanciar do comportamento dos nossos líderes. Porém, o reverso da moeda é que você passa a não ter palavra em tudo que acaba de dizer”- fim da citação.


O meu amigo tinha resumido o espírito da pergunta de retórica que fizera, é que, é incrível como as pessoas pensam que ficam mais confiáveis lá fora quando apontam somente os erros. Se ainda vivêssemos no tempo em que a liberdade de expressão era coarctada, diria que tal procedimento serve de protesto, mas muitas vezes, trata-se de pessoas que internamente conhecem e dominam os mecanismos pelos quais podem expor os seus problemas e não o fazem, a espera de uma oportunidade para serem chamados por uma ONG e/ou organizações político económicas, para falarem das suas frustrações como se de verdades se tratassem. E, mesmo que considerando que falam verdade, quando falta o elemento responsabilidade na sua locução, acabam fazendo o papel inverso do que se pretende.


Olhando para esta questão do ponto de vista da nossa sociedade, diríamos que não há famílias que não tem problemas, contudo, é preciso saber lidar com os problemas de forma responsável, porque, ao membro da família que for questionado fora como vai a sua família e desatar a falar mal da sua própria família, não sabemos se este merece ou não consideração como membro da família. Aliás, no âmbito da responsabilidade aludida, mais do que conhecer e enumerar todos os problemas do país, torna-se essencial avançar propostas de soluções ou, não as tendo, ao menos, enunciar as soluções que outros experimentam para os problemas identificados.


Ao acaso, alguma vez esses Embaixadores da Desgraça já ouviram as pessoas a quem eles dão relatórios de mal dizer, a falar mal das suas próprias nações? Certamente que não, aliás, o norte-americano combate internamente de forma obstinada a pena de morte, e nem por isso, o autoriza a falar dela com a mesma liberdade com que fala internamente no seu país. Aliás, sempre que é questionado fora, corre logo para os aspectos que considera humanitários na pena, como a questão conceder uma última missa e refeição a quem será executado, fala do aspecto “humanizante” da injecção letal, dando a ideia de que aquela torna a morte menos dolorosa, como se quem morre pudesse acordar para confirmar a informação.


São os Embaixadores da Desgraça que não hesitam em convidar aos países que nos apoiam a cortarem a ajuda porque segundo eles em Moçambique há corruptos. São estes, que não medem (e nem sentem necessidade de o fazer) esforços ao pedir ao outro cortes que se sabe castigam o moçambicano comum só para serem vistos como diferentes, pensantes, iluminados, os únicos que detectam e denunciam erros de governação, a quem se deve ouvir porque tradutores da verdade.


O que sucede muitas vezes, é que quem nos ajuda já tem referências destes males como a corrupção em relatórios e ou estudos encomendados e não poucas vezes conduzidos com ligeireza, ao que, quando a aqueles se acresce uma voz de um nacional desse mesmo pais, e sendo alguém que se presume diligente, os rumores passam a constituir verdades e pior quando a tonalidade da pele de quem diz se aproxima mais e/ou se iguala ao do ocidental.


O que não desconfiam é que a informação que aquele traz muitas vezes é suportada por uma carga ideológica, que pode reflectir frustrações e até ignorância sobre o assunto que se pensa conhecer, mas, porque é nacional, e até formado na área em causa, não há outra presunção senão a de que fala a verdade mesmo quando em prejuízo de todos nós como costuma ser.


São estes Embaixadores da Desgraça que correm para as redes sociais e outros espaços divulgando excertos mesmo antes da divulgação formal os dados de um certo relatório, como se tivessem acesso as fontes, quando no fundo as fontes são eles mesmos porque impacientes em verem retornar os relatórios que eles mesmo enviaram e divulgam.


O meu apelo aos Embaixadores da Desgraça, se é que vale a pena apelar, é o de que podem sim mandar a informação, mas que olhem para esta com alguma responsabilidade porque atitudes como esta enfraquecem os Estados e consequentemente a sua própria liberdade no lugar de os fortificar, que saibam que na resposta as ambições particulares, pode-se comprometer o projecto de um povo, sim, uma nação vale antes pelo seu povo e não pelos governantes e devia ser sob prisma do povo que se deveria repensar as sugestões ao ocidente de cortar e/ou diminuir a ajuda por exemplo, ou outras formas de intromissão degradantes e humilhantes para o nosso Estado. A continuarem no caminho em que seguem saibam que um dia nem um, nem outro, vos vai querer ouvir, porque, acreditem, que quem vos pede informações sensíveis sobre o vosso país e vocês dão sem contemplações, sabe de antemão que vocês não são confiáveis, pelo que vos usarão até o dia em que não forem mais úteis.


Mas seria injusto terminar este artigo sem congratular-me, por todos aqueles moçambicanos que mesmo reconhecendo os problemas que enfrentamos no dia-a-dia, projectam o nosso pais com uma mensagem de esperança, de confiança, responsabilidade, estabilidade social, e que olham para os problemas como desafios. Para este, um abraço de quem sabe que temos problemas, mas que podem ser solucionados e ainda o meu abraço, a quem se bate e discute todos os dias os problemas reais deste pais com frontalidade, sem apelo a emoções, pessoas que lhes interessa somente um Moçambique próspero.


Amosse Macamo



PS1: Deixem me acrescentar aqui um comentário de outro Macamo em relação as questões que este Macamo, o Amosse, coloca aqui:

Caro Júlio e demais comentadores, concordo com as intervenções do Nelson e do Reflectindo. O único que se devia esperar de todos nós é falar com responsabilidade dentro e fora do país. Falar com responsabilidade não é dizer o que não prejudica o país (porque isso seria difícil de determinar), mas sim o que é passível de ser discutido de forma construtiva na esfera pública. Infelizmente, é justamente isto que tem feito mais falta em muitos debates. Por exemplo, achei que Jorge Rebelo tem sido menos responsável na suas intervenções por fazer afirmações que não conduzem ao debate de ideias. A sua sugestão de que os íntegros estão a ser corridos do governo parece-me bastante gratuita sob este ponto de vista. Pelo contrário, acho as intervenções de Castel-Branco muito responsáveis porque permitem uma discussão construtiva (independentemente de ele ter razão ou não). A coisa piora quando nós os demais reduzimos tudo ao "estar contra ou a favor" e preocupamo-nos pouco com a substância do que as pessoas dizem. Há muitos que pensam que participar na discussão pública é formar clubes de apoio a este ou aquele. O patriotismo não pode ser uma medida útil. O sentido crítico é que deve ser o nosso guia, algo que tu Júlio tens praticado bastante neste blogue. abraços.

Elísio Macamo

PS2 Chamo atencao aos textos publicados aqui, aqui e aqui por Abdul Karim que mos remeteu tambem por email. Agradeco eh uma visao interessante que tem a ver com o que discutimos aqui.

Há “Bifes” no Futebol em Moçambique

O meu clube do coração é Vice Campeão nacional de Futebol; Vencedor da Taça de Moçambique em Futebol; Campeão Nacional de Basquetebol Sénior Masculino; Também é campeão da Cidade de Maputo nas camadas de formação (juvenis e juniores) em futebol. Grande obra do meu Maxaquene.

Se por um lado faço um balanço positivo da época, como adepto ferrenho não posso deixar de mostrar a minha indignação com as notícias de viciação de resultados no Moçambola, que encheram as páginas dos nossos jornais quase todas as semanas no decurso da prova.

Mais estupefacto fico quando leio estas notícias saídas no Jornal o País de hoje dia 15 de Novembro de 2010, em que Arnaldo Salvado, treinador do meu clube, denuncia actos de corrupção praticados por alguns dirigentes, chamando os bois pelos nomes.

O que vem a ser isto? Que medidas está a Liga moçambicana de Futebol e a própria federação a tomar para clarificar estas questões pouco abonatórias do nosso desporto e do nosso futebol em particular? Que rumos devemos tomar? Qual é o papel dos intervenientes no processo desportivo na credibilização do nosso desporto?

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Ainda Sobre os Criticos: Ha Corruptos? Cortem Ajuda

Na entrada anterior debatemos exaustivamente questões ligadas ao nosso passado e ao nosso presente e, fundamentalmente, a forma contextualizada como devemos olhar para esse passado e o presente. Um debate interessante que se estende agora para este espaço do Agry White.

Tenho é a impressão de que algo ficou por dizer. Há corruptos no Governo como diz o camarada Jorge Rebelo. Para piorar, os honestos estão a ser corridos do poder (casos dos Dr.s Comiche e Garrido) em benefício dos corruptos.

Assim sendo, devíamos pedir o corte da ajuda externa. Ou não? A “greve” dos nossos brothers, a semelhança do ocorrido nos primeiros tempos do presente mandato, devia ser induzida por nós através destas constatações. Justo não é?



Estaríamos a prestar um serviço honroso a nação. Ou não?

Aproveitando e pedindo emprestado um questionamento do meu amigo Amosse no seu Facebook acrescento mais questionamentos: Como um Moçambicano deve tratar assuntos sensíveis do seu País, principalmente, quando está fora? Como transmitir alguns factos (negativos) que internamente sabemos que são reais (ou mesmo os que os sabemos irreais ou duvidosos) a quem é determinante para nós? (falo por exemplo da informação que possa ser prestado a países que ajudam no nosso orçamento).

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Que Dizer de Nós? Ontem e Hoje...

Os últimos pronunciamentos de grandes figuras do Partido Frelimo levantam a mim questões relevantes que devem merecer uma aabordagem crítica desapaixonada.

O nosso camarada Jorge Rebelo veio a público e "partiu a loiça" como se diz por aí, com críticas das quais nem AEG, ele próprio, escapou (afinal o "não corrupto" Dr. Ivo Garrido foi "corrido" por Guebas).

Estes pronunciamentos tiveram eco em determinada imprensa que não se coibiu de colorir as primeiras páginas com título parangonosos de aplauso a "rebeldia" interna deste destacado militante da Frelimo.

Se por um lado aplaudo o exercício democrático de, livremente, expressarmos as nossas opiniões, custa-me um pouco olhar para as comparações, reais ou aparentes, com o passado.

A abertura que se experimentou teve muitas vantagens económicas e sociais. Desde logo, a circulação mais livre de pessoas, maior oferta de bens e serviços no mercado, maior crescimento económico, maior abertura no debate de ideias, etc.
Nestes termos me parece falta de honestidade intelectual e política quando se comparam os níveis de criminalidade e de corrupção entre tempos do socialismo e os tempos actuais.
Nos tempos do socialismo todos vivíamos mal, com as bichas, com as carências de todo o tipo. A sociedade era fechada, com a actuação omnipresente dos Chefes de Quarteirão, dos milicianos e de todo o género de autoridade. A atmosfera de vigilância e denúncias mútuas, que o Departamento do Trabalho Ideológico incentivava submergia qualquer iniciativa, quer positiva, quer negativa.
A abertura económica e o consequente aumento da competição entre os indivíduos têm, necessariamente, que trazer novos desafios nestas matérias. Ouso dizer que, mesmo Samora, se fosse vivo nos dias de hoje, teria que enfrentar maior criminalidade e corrupção, fenómenos que, a meu ver, independem da personalidade e perfil de Samora tendo, isso sim, a ver com o relaxamento da pressão colectivista da sociedade e mais incentivos à iniciativa e promoção do individuo. Tem a ver com a eliminação dos controles que um dia tivemos com os chefes das 10 casas, chefes de quarteirão, milicianos e outros agentes omnipresentes no modelo de ontem competentemente chefiado pelo Camarada Jorge Rebelo propugnava com denodo. Já diz meu amigo PC Mapengo num texto lindo intitulado "Manifesto Político" “Saudades sim mas ninguém quer voltar porque não podemos esquecer o tempo que passou... eram bons tempos aqueles que ninguém quer mais voltar.”

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

E se Mudássemos os Critérios Salariais?

As minhas actuais funções dão me o privilégio de organizar e/ou participar em muitas reuniões. Há dias participei numa da qual, entre outras coisas, retive uma reflexão interessante no sentido do exposto no título deste post.

Sugeria um dos participantes que se deve mudar o paradigma salarial no país: as pessoas não devem ser pagas pelo que sabem; devem ser pagas pelo que fazem com o que sabem.

Interessante não é?

Nestes termos não bastaria o diploma para almejar salários altos; seria necessário usar (bem) os conhecimentos atestados pelo diploma para almejar tais níveis salariais.

Eu acho interessante…fecharia a corrida ao diploma para abrir a corrida ao conhecimento com ganhos para o país e, em especial, para a função pública que está (e estará) num processo de reforma.

sábado, 16 de outubro de 2010

Vamos Combater a Credulidade (8a) Dos das Correlações

Retomo a abordagem feita aqui sobre a nossa postura no debate, recorendo de novo aos textos do professor Elísio Macamo com o título acima.



Vamos combater a credulidade (8a) Dos das correlações
E. Macamo

Vou ter que discutir o tema das correlações em três textos seguidos. Acho importante fazer isto porque a problemática que vou tratar tem estado, do lado académico, no centro de como abordamos um bom número de fenómenos sociais no nosso país. O tipo de argumento que me interessa, e que pode fomentar a credulidade, consiste em chegar a conclusões a partir da constatação de correlações e partir dessas correlações para uma causa. No fundo, não há nada de errado neste procedimento e, aliás, a responsabilidade pelas conclusões que são tiradas não pertence aos autores, mas sim a nós os leitores que preferimos dá-las por adquirido.


Existe, felizmente, um trabalho científico da autoria do Professor Carlos Serra do Centro de Estudos Africanos da Universidade Eduardo Mondlane com o título Cólera e Catarse, realizado em 2002 na província de Nampula, que, em minha opinião, usa este tipo de argumento. Talvez seja bom dizer de imediato que a minha análise não põe em causa a autoridade científica do autor. Faço este reparo porque quando publiquei este texto pela primeira vez na internet houve reacções bastante agressivas de gente que ignorou os reparos metodológicos que fiz e preferiu questionar as minhas motivações. Que a crítica por pares faz parte da vida académica passou completamente despercebido a essas pessoas. Sendo o Professor Serra o sociólogo mais produtivo ao nível da pesquisa no país e, ainda mais, debruçando-se sobre fenómenos de grande interesse público – e politicamente relevantes – é importante não só prestar atenção ao que ele diz, mas proporcionar aos interessados instrumentos com os quais eles possam digerir essa produção sem caírem na credulidade como alguns têm, infelizmente, feito.


Vou começar por expôr a obra de forma breve e, no artigo a seguir a este, vou tecer comentários à sua volta. O estudo debruça-se sobre os ataques contra agentes de saúde em Nampula perpretados por populares que acreditavam que estes eram quem causava a cólera. Segundo os autores – a pesquisa foi feita por uma equipa de investigadores – a crença popular (de que a cólera é introduzida pelo governo através do cloro) não é algo irracional como alguns de nós nos sentiríamos inclinados a crer. Ela documenta uma crítica popular ao Estado que não é dialogante, é ineficaz na solução dos problemas do povo, é representado por funcionários alheios aos anseios do povo e tudo isto num ambiente de privações. Na verdade, segundo o estudo a crença pode ser irracional do ponto de vista da explicação científica das causas da cólera, mas perfeitamente coerente com aquilo que os autores do estudo chamam de “consciência de privação”.


De certa forma, portanto, o estudo diz-nos que esta crença é o resultado de um Estado, digamos, problemático contra o qual os populares reagem. Do ponto de vista formal, a estrutura do argumento é simples e consiste de uma premissa apenas. A premissa diz que existe uma correlação entre A (natureza do Estado) e B (crença popular). A conclusão é de que A é a causa de B. A hipótese formulada para o estudo gira em torno deste argumento: “A crença de que a cólera é introduzida pelo governo em Nampula através do cloro (fenómeno) é um indicador de insegurança popular (nível 1) ampliada pela tensão política (nível 2).”. Já na preparação da problemática os investigadores haviam anunciado a intenção de “desnudar o mito da cólera” através da obtenção de “... conhecimento das opiniões dos cidadãos sobre o Estado no concernente à prestação de serviços essenciais como água, saúde e educação”. O estudo confirma o nível 1 (a crença como indicador de insegurança popular), mas não encontra sustento para o nível 2 (a crença é ampliada pela tensão política).


Para este efeito, os investigadores entrevistaram várias pessoas em alguns distritos da província de Nampula. Essas entrevistas produziram depoimentos muito interessantes que, na interpretação dos investigadores, revelam um mal-estar popular em relação ao papel do Estado. Os dados obtidos desta maneira em todos os distritos inquiridos convergem na apreciação negativa do papel do Estado e de algumas ONGs, por um lado, e na reacção que consiste em atacar os agentes do Estado e das ONGs como vectores do mal. O estudo critica duramente aqueles entrevistados, na sua maioria representantes do Estado, que atribuem a acção popular ao analfabetismo e à ignorância. Ele tenta mostrar que a crença não tem nada de irracional, mas é uma reacção à indiferença e oportunismo dos agentes do Estado. Os leitores que acompanham a produção do autor principal vão notar que se trata, na essência, do mesmo argumento que é utilizado para explicar os linchamentos e, porque não, distúrbios como os de 5 de fevereiro e 1 de setembro: falta de confiança no Estado, logo, reacções populares bizarras encontram a sua lógica no comentário crítico que tecem sobre esse Estado. Amanhã vou prosseguir com uma leitura crítica.

Vamos combater a credulidade (8b) Dos das correlações
E. Macamo


Como ler criticamente um estudo tão bem feito como este? Ainda há espaço para distância crítica? A correlação entre apatia do Estado e crença no mito da cólera é, nos dados apresentados pelo estudo, tão elevada que não pode haver outra maneira de interpretar os resultados. Existem basicamente três estratégias para interpelar criticamente este tipo de argumento. Todas elas consistem em perguntas. A primeira pergunta é a seguinte: será que existe mesmo uma correlação entre A e B? A segunda não menos importante é a seguinte: haverá alguma razão para supor que a correlação não seja simplesmente pura coincidência? Finalmente, a terceira pergunta é: é concebível que haja um terceiro factor (digamos C) que constitui a causa de A e B? Esta última pergunta não é inocente. Na verdade, há muitas correlações que fazemos no quotidiano e que se explicam, muitas vezes facilmente, com recurso a uma terceira variável. Por exemplo, podíamos associar a quantidade de estragos num incêndio ao número de bombeiros que o debelaram e concluirmos que os bombeiros são a causa do estrago. Contudo, pode ser que o tamanho do incêndio tivesse exigido mais bombeiros pelo que o próprio tamanho é que seria responsável pelos estragos. Por conseguinte, a nossa distância crítica tem que nos conduzir a eliminar outros factores que possam estar por detrás da correlação imputada. Pensar criticamente significaria, neste caso, justamente eliminar esses factores.


Colocadas as coisas desta maneira, podemos começar a ver alguns problemas com o estudo. Em relação à primeira pergunta (será que existe mesmo uma correlação entre A e B?) podemos, socorrendo-nos dos dados facultados pelo estudo, dizer que de facto existe uma correlação entre a apatia do Estado e a crença popular. Os vários depoimentos são prova disso. Abro aqui, porém, um parêntesis para dizer que seria interessante perguntar também se em todo o lado onde se manifesta este tipo de crença o Estado é visto como sendo apático ou, dito de outra maneira, porque sendo o nosso Estado geralmente apático (suponhamos) não se verificam estas crenças noutros pontos do país com a intensidade que elas têm em Nampula? Estas perguntas são particularmente pertinentes na consideração da terceira pergunta mais adiante.
A resposta à nossa segunda pergunta (haverá alguma razão para supor que a correlação não seja simplesmente pura coincidência?) é menos linear. Há um investimento normativo muito forte por parte dos investigadores para estabelecer a responsabilidade do Estado. A (ir)responsabilidade do Estado é a resposta padrão dos estudos feitos pela Oficina de Sociologia. Porque há linchamentos? Porque há privatização da justiça face à inoperância do Estado. Porque as pessoas frequentam as igrejas pentecostais? Porque estão a reagir à ausência do Estado cuja responsabilidade é escondida pelo discurso da culpa pessoal das preces feitas nessas igrejas. O que quero dizer com isto é que o estudo foi feito com a intenção de “desnudar o mito da cólera” através da obtenção de “... conhecimento das opiniões dos cidadãos sobre o Estado no concernente à prestação de serviços essenciais como água, saúde e educação”. Conhecidas que são as “insuficiências” do nosso Estado, era concebível que o discurso popular fosse diferente do apurado? Não me parece. Em certa medida, portanto, o estudo confirmou a sua própria profecia.


Contudo, há aqui e ali elementos interessantes que vão sobressaíndo dos depoimentos populares. Por exemplo, fala-se de conflitos entre duas interpretações do Islão; fala-se de conflitos entre os jovens e os mais velhos; fala-se de conflitos entre mulheres e homens, embora (tendo em conta o facto de se tratar de sociedades matrilineares) me pareça haver exagero na apresentação da novidade do protagonismo feminino. Estes conflitos são secundarizados no estudo e não merecem a atenção prolongada dos investigadores. O que me parece uma pena. Na verdade, teria sido interessante cruzar estes conflitos com o perfil social daqueles que se envolveram no ataque aos agentes da autoridade e procurar saber se aí também há correlações a fazer. É verdade que do ponto de vista da pesquisa seria difícil encontrar pessoas que tivessem a coragem de dizer que cometeram delitos, mas mesmo assim a partir dos depoimentos teria sido possível estabelecer correlações entre estes outros conflitos e as crenças. Os autores não fizeram nada disso e esta omissão parece-me constituir o calcanhar de aquiles de um estudo que, de outro modo, é um excelente exemplo da pesquisa social empírica. A responsabilidade, porém, não está nos autores, mas naqueles que vão ler o estudo sem procurar interpelar as suas conclusões para além do que foi dito.


À terceira pergunta (é concebível que haja um terceiro factor (digamos C) que constitui a causa de A e B?), para voltarmos à vaca fria, podemos responder afirmativamente. Podíamos dizer que a crença em si é manifestação de ignorância ou de estruturas tradicionais de pensamento, mas que isso em si não é fundamental. O que é fundamental é explicar a reacção violenta na sequência da crença. Aí podíamos dizer que quer a reacção violenta, quer a apatia do Estado são fenómenos que são explicados pelo desmoronamento das estruturas de autoridade naquela região de modo que a nossa atenção não se deve cingir apenas às críticas ao Estado, mas às transformações que ocorrem naqueles meios. E, de facto, os vários outros conflitos mencionados, mas não aprofundados, revelam que a questão da autoridade é fulcral. É interessante notar que as pessoas, no fundo, sabem que o cloro não causa a cólera. Desconfiam das intenções dos representantes do Estado, mas esta desconfiança não explica a sua reacção violenta. No artigo a seguir fecho esta mini-série de três artigos.